Vais para a Universidade e és morto. Vais a casa de teu amigo e és morto. Um dia, visitas os escombros daquilo que foi a tua cidade e és morto. Um dia, encontras o lugar onde teus pais e irmãos foram sepultados e és morto. Um dia, caminhas pelo deserto e és morto. Um dia decides não ir a parte alguma e, esteja aonde estiveres, és morto. Porquê? Nasceste livre, apenas isso. Os teus assassinos não precisam de outros motivos para te odiarem. Para estes bárbaros, o sangue da liberdade tem que ser derramado. Até à última gota. Até ao fim do mundo.
domingo, 5 de abril de 2015
Garissa
sexta-feira, 3 de abril de 2015
A Linguagem é uma pele
A emoção de ser o outro
«Esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras em vez de dedos, ou dedos na ponta das minha palavras.» (R. Barthes)
Podemos amar o Outro sem nunca termos trocado um único beijo? A esta pergunta tenho somente uma resposta: tudo pode acontecer, mesmo sem ter acontecido, pois a memoria constrói-se com esta força fragil, porém infinita dos nossos afectos. Uma força tão poderosa que percorre toda a narrativa do discurso amoroso e o resultado são as distorções da memória. No fim de tudo, obteremos, não factos, mas uma ficção sobre o que fomos, o que sentimos, em último caso o que inventámos acerca da nossa história com o Outro. Uma ficção, apesar de tudo, útil - a distorção dos factos ajuda -nos, enquanto narrativa, a construirmos a identidade que mais nos serve, a pele certa para a nossa carne, ossos e sangue. Em último caso, a distorção devolve-nos a liberdade de uma reconstrução de nós, alicerçada numa verdade só nossa, indesmentivel, para além de factos e omissões. Amigas formigas, assim sendo, o amor é a melhor invenção de todos os tempos! Recordo o filósofo e semiótico Roland Barthes (1915-1980), numa das suas obras emblemáticas, Fragmentos de um discurso amoroso"(Lisboa, Edições 70). Porque a linguagem é a minha pele e, como ainda diria Barthes, a linguagem do amante "treme de desejo" e afecta o Outro. Seja ele quem for. Na esteira de Barthes, a solidão extrema é o que me faz inventar uma trama com duas personagens envolvidas pela loucura do amor. E sentir a emoção de ser o Outro nessa mesma e poderosa narrativa.quinta-feira, 2 de abril de 2015
sábado, 28 de março de 2015
"O Céu é dos Violentos" ( S. Mateus)
O Céu é dos Violentos?
A morte perdoa tudo? Até mesmo os criminosos têm reservado um lugar no Céu? O co-piloto que desfez os 150 seres humanos a bordo de um airbus 320, pelo seu embate num dos picos dos Alpes Franceses, também lá deve estar. Mas, especificamente, aonde? Encontrar-se-á no mesmo Céu dos bons e compassivos? Todas a teologias, não somente a Cristã, justificam-se em parte pelo culto a uma figura da Bondade e Misericórdia infinitas. Mas a história contemporânea revela-nos que os idólatras reverenciam uma outra deidade: o Mal, e no seu estado mais puro. Mas, mesmo aqueles, ganharão o Céu.
Queridas amigas formigas pensadoras, confesso a minha descrença, seja no Bem absoluto, seja no Mal que automaticamente se redime, face à morte dos seus delegados terrenos. A minha crença reside no acto de Pensar, o mesmo que nos confirma perante a Vida como seres dignos da nossa humanidade. Pensemos, então, a uma distância ecológica de todas a teologias que, por vezes, parecem existir somente para nos confundir.
O piloto que interrompeu a vida de 150 pessoas, agiu porque envolto na bruma da depressão. Mas tal não ajudará a sublimar a dor dos familiares e das vítimas. Agora, o Céu dos violentos parece ter a dimensão e a aparência de um gigantesco, cemitério. Pois, que assim seja: que o Céu atraia para si todos os violentos da Terra. Todos. Deixem o Céu para os violentos, que eles se deleitem com banquetes e outras bem-aventuranças, sobre as campas daqueles que ajudaram a dizimar. Nós, os herdeiros desta Terra, transformaremos as ruínas em lugares de Paz. Dispensamos, de viva voz, ascender a um lugar tão abstracto e, contudo, tão violento e limitador da crença na Humanidade.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Fora do carreiro
Querer sair do carreiro é uma coisa. Como fazê-lo, é outra. Obter independência financeira, eis a primeira e falsa prerrogativa, já que tal se encontra reservado aos bons e maus ladrões ou, na melhor das hipóteses, a uma herança-surpresa. Outro pensamento mágico é julgarmos-nos capazes de agir no sentido de nos vermos livres de constrangimentos e responsabilidades. Vai daí apresentamos demissão do nosso emprego. De seguida, arranjamos um namorado/a mais novo e portanto na mesma sintonia irresponsável. Junte-se a isto a compra de todos os livros de auto-ajuda com títulos disparatados tais como, "Mude a sua vida em 5 minutos", com as respectivas receitas para a liberdade pessoal.
Ora, na opinião desta Encantadora, tal pode muito bem ser um bilhete só de ida em direcção à pobreza ou, pior, ao internamento num hospício por depressão severa.
Queridas amigas formigas, sugiro-vos um Encantamento: abrandem o vosso desespero. O desespero paralisa-nos a mente. Falamos de um carreiro, num pensamento único, ou mesmo na ausência de qualquer pensamento. Daí a necessidade de exercitarmos o acto de pensar. Não aceitamos que nos digam como devemos mudar ou então como devemos contornar a infelicidade. Seja um livro, um guru, ou mesmo um auto-proclamado profeta. Confiamos na nossa intuição (tão subvalorizada nas escolas), no nosso bom-senso. Valorizamos o que sabemos, o que aprendemos. Agradecemos aos amigos e supostos inimigos (principalmente a estes últimos) o facto de terem participado deste acumulo de experiências. Clarificamos os erros, sem nos armarmos em juízes de nós próprios. Em conclusão, pensamos e logo existimos fora do carreiro, assim transformado na mais pura ilusão.
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