quinta-feira, 14 de maio de 2015

A tortura do escorrega

Apesar de só ter entrado na escola em Janeiro, ela já sabia ler. E desenhava bem. Isso bastou. O carreiro de formiguinhas de bata cor-de-rosa uniu-se para dar uma lição à menina nova. Parecia fácil: era demasiado pequena para ter 6 anos. O carro do pai da menina também era pequeno. Pois, mais fácil não podia ser. 

Constituiu-se uma milícia, com um plano em três fases: 1 - Caso a professora elogiasse a menina nova, as formigas erguiam as antenas e entreolhavam-se com sorrisos maldosos, numa espécie de sinal  (a menina levou tempo a perceber a ligação entre esses dois fenómenos).  Fase 2 - tocava a campainha, o longo carreiro de formigas, do 1.º ao 2.º ano, seguia para  recreio, com as formiguinhas cor-de-rosa na dianteira. 

Era exactamente no recreio, com um simples escorrega de ferro e madeira, que a tal milícia se organizava em dois grupos: o primeiro obrigava a menina a subir os degraus do escorrega, enquanto que ao segundo cabia balançar-se na parte de baixo, tomando assim impulso para pontapear-lhe com força as pernas nuas. Fase 3 - Ameaçar: se contares, amanhã matamos-te! Em casa, a mãe, que nódoas negras são essas, fui eu que caí, mãe. Ela não queria morrer no dia seguinte. Os altos degraus de ferro custavam a subir. E elas eram muitas. Aí umas dez. 

A menina nova começou a relacionar a suas boas notas com a tortura do escorrega. Resolveu defender-se. Passou a ler mal, ao mesmo ritmo descompassado das colegas. Os desenhos, deixava-os a meio, não fossem ficar bonitos de mais. A mãe estranhou os maus resultados, foi à escola, fez perguntas à professora e esta, por sua vez, indagou as funcionárias que vigiavam o recreio. Sim, elas sempre tinham estado ali. Na verdade, enquanto decorria a tortura do escorrega, a menina via-as virar a cara para o lado. As formigas da milícia eram filhas de "gente bem", gente com dinheiro. Com o poder de tirar-lhes os empregos. Uma dela nunca mais apareceu. A directora do externato também castigou algumas das formigas cor-de-rosa. Nem todas, uns quantos cheques compraram silêncios e omissões. 

Hoje, ela ainda olha para um escorrega como se olha para para um objecto de tortura.  Basta um simples brinquedo para a crueldade ter um instrumento para se consumar. Quem diz brinquedo, diz arma. Diz bomba. Diz silêncio.

domingo, 10 de maio de 2015

A cozinheira de Salazar

A Cozinheira das Cozinheiras


Rosa Maria, a autora deste livrinho, logo na  introdução, não perde tempo a esclarecer-nos quanto ao statuts do caldo nas mesas portuguesas do Estado Novo: «É o primeiro prato de todas as mesas, e o único, quase sempre, da gente pobre». Mas não se fica por aí: «O caldo, nas mesas fartas, prepara o estômago para receber os pratos que se seguem.» Uma pérola, estas linhas de Rosa Maria, a cozinheira das cozinheiras do Regime Salazarista. 

Mais que um livro de culinária, "A cozinheira das cozinheiras" é um tratado sociológico dividido em centenas de receitas. Basta abri-lo ao calhas e salta-nos a receita do doce "espera marido", que ainda por cima pretende que se atinja um "açúcar em ponto de espadana". Seja lá o que isso for, parece moroso, quase um procedimento laboratorial.
No livro de Rosa Maria, todas as receitas que incluem animais não dispensam depenar-se primeiro a galinha, lavar os intestinos ao porco, chamuscar e limpar as vísceras ao pato e esta piéce de resistance que é embriagar perus com vinho branco antes da matança, embora com o toque de misericórdia de "ir entretendo esta embriaguez até à ocasião da morte, para que esta seja suave". Isto divide créditos com algumas séries policiais americanas. Mas Rosa Maria estava longe de ser uma mente criminosa, nem sequer um alvo dos actuais grupos de defesa dos animais. A nossa Rosa não passava de uma das "cozinheiras de Salazar", que, à imagem do ditador, admitia com simplicidade a tortura de seres vivos no local de trabalho (leia-se calabouços da Pide). E, como se deduz, manter a condição feminina de barriga encostada ao fogão, com um peru aos tombos pelo quintal.

Por falar em barriga, a contra-capa do livro também não nos desilude, quanto ao seu grau altamente educativo. Aqui, anuncia-se o próximo volume: "Fecundação, gravidez e parto", de um tal Ch. Vernau, "Livro indispensável a todas as mulheres, para que conheçam a sua nobre missão procriadora (...) um volume profusamente ilustrado, com gravuras a preto e a cores.» Brrrrr.

Este livro de culinária, com a chancela da Civilização Editora (outrora Livraria Civilização)  foi-me oferecido por piada, mas na verdade já experimentei algumas receitas. Saltei as partes malignas e obtive bons resultados. Quanto às formigas que não cozinham de todo, adquiram-no para atirá-lo às ventas de quem  se atrever a comentar "o bem que o doutor Salazar fez ao nosso país." O mesmo país onde os caldinhos dos pobres e os caldinhos dos ricos mantinham a boa ordem social. A bem da Nação.


I LOVE 560





sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cabíamos tão bem naquele destino


Teus olhos devolveram-se à multidão,
 meu corpo, a esta cela de mar.
Logo agora, quando
 tão bem cabíamos naquele destino,
 duas linhas num desenho sem título.
Aconteceu um comboio partir distraído e assim
 viemos sentar-nos a este muro.
Em redor, um silêncio sem raízes.
Fizemos deslizar o desejo para a sombra,
Depois, veio a  encruzilhada
dois pedaços de carvão resvalaram do mesmo lume.
Antes da nossa viagem traída,
 éramos um só prodígio repartido em duas mãos. 
Feneceremos nesta foto sem deslumbre. 
Logo nós, que tão bem cabíamos naquele destino,
Duas linhas, apenas um rumo, traçado no espaço
 da folha branca, universal.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A orelha de Van Gogh e outros mitos

«A tua tarefa é descobrir o teu trabalho e, então, com todo o coração, dedicares-te a ele.» Buda.


Van Gogh / Auto-retrato com ligadura - Nacional Gallery

O que é um Mito? Algo próximo da lenda ou do conto de fadas. O dicionário Houaiss define o mito como uma «afirmação fantasiosa, inverídica, que é disseminada com fins de dominação, difamatórios, propagandísticos…». A ser assim, uma das características do mito é assemelhar-se ao mero boato: uma história que se espalha boca-a-boca para justificar algo inteiramente infundado.

Quando uma alminha profere a célebre frase: "Aquele/aquela é um/uma artista", muitas das vezes insinua que ele/ela é alguém com um estatuto à parte, infelizmente baseado nos tais mitos que rodeiam a arte e a vida dos seus produtores. O Encantamento proposto para hoje tem por alvo desconstruir 
4 mitos fundamentais, que extraí de um longuíssimo rol  de disparates. Ei-los:

Disparate número Um: os artistas vivem na pobreza e à beira da loucura
Algumas das amigas formigas terão uma história sobre um parente que decidiu abandonar o negócio da família para se tornar “artista”. O cenário é sempre o pior: nunca ter dinheiro para pagar as contas, vestir-se mal, comer pior e manchar o bom nome dos antepassados com atitudes excêntricas. Um dos episódios mais conhecidos da História da Arte (ainda é) o da  orelha de Van Gogh. Num momento de loucura cega, o pintor cortou o lóbulo da orelha direita e enviou a macabra encomenda a uma prostituta.  
Em Portugal existem artistas que vivem das suas criações. Admito: poucos. Mas existem. Pintores, escultores, actores, bailarinos e músicos, vivem das suas paixões e, que eu saiba, com as orelhas e a saúde mental intactas.

Disparate número dois a arte é cara, portanto só os ricos a podem comprar.
Van Gogh /Jarra com Margaridas e papoilas
Voltemos a Vincent Van Gogh. Sabemos que vendeu, em vida,  apenas um quadro, uma natureza-morta intitulada "Jarra com margaridas e papoilas". Se calhar por um preço irrisório - algumas das suas pinturas foram trocadas até por pratos de comida. A 4 de Novembro do ano passado, a pintura foi arrematada num leilão da Sotheby's pela quantia astronómica de 40 milhões de euros. Serve este apontamento para dizer que o investimento em arte não é, obrigatoriamente, um investimento ruinoso. Mais: pode até auxiliar uma jovem promessa. Neste ponto refiro um elemento fundamental: aconselhamento especializado. Não me canso de levar as mãos à cabeça quando vejo carreiros de formiguinhas adquirirem objectos de gosto e valor artístico duvidosos com vista a decoração da sala de visitas. A melhor alternativa (e talvez a mais barata), seria rumar  à “galeria perto de si”, pedir catálogos, ver a exposição patente no espaço, explorarem com o galerista as obras da reserva ou, tão-somente, solicitarem o tal aconselhamento. Acredito que, em 99% dos casos, saíam com uma produção artística que o tempo se encarregaria de valorizar. Poderá dar-se o caso dessa obra, desse tal “valor seguro” arrevesar-se com os tons das cortinas e da carpete? Sim, e daí? Mais vale ter uma boa  gravura de um jovem artista português em ascensão, do que uma natureza-morta pintada por um anónimo e que mais tarde qualquer herdeiro poderá incendiar, sem qualquer pingo de remorso, juntamente com os cortinados desbotados e a carpete puída.

A reboque do tema “valor seguro”, passemos ao disparate número trêsos artistas são pessoas materialmente desprendidas. Na grande maioria dos casos, a afirmação ajusta-se. Em Portugal, muito do teatro é suportado, em grande parte, pela boa vontade e voluntarismo de quem o faz. Mas a tendência geral é confundir desprendimento com ignorância financeira. Confunde-se o conceito de riqueza com o de abundância. Uma pessoa rica não será obrigatoriamente abundante, uma vez que a abundância inclui factores impossíveis de mensurar como o possuir e dar amor, gosto pela vida, ser bondoso, respeitado…Mas fiquemo-nos pelo mito da ignorância financeira. Charlie Chaplin, o criador da inesquecível personagem, "Charlot",  aos 11 anos, órfão e sem-abrigo, deambulava com o irmão pelas ruas de Londres a fazer pantominices para quem lhes atirasse moedas. Tratava-se de pura auto-aprendizagem financeira. Em adulto e ao 3º filme, já ganhava dez mil dólares por semana. Isto em 1916! Chaplin conseguiu, em vida, aquilo que muitos ainda sonham: abundância. Viveu para criar. Intensamente, com regras bastante próprias, mas com a inteligência financeira suficiente para prosperar. Muita dessa Inteligência ganha com a vida nas ruas.

Depois do que atrás ficou escrito, o disparate número quatro soa-nos como o mais ridículo de todos: a Arte não é um trabalho a sério.
A ideia feita, o preconceito em relação ao trabalho artístico, o lugar-comum que enfia a arte no mesmo saco de hobbys como a jardinagem ou o coleccionismo, são exemplos de como um mito pode persistir com a cumplicidade de todos os membros de uma sociedade. Ainda existe a fórmula, repetida desde a Revolução Industrial, pela qual é obrigatório trabalhar com horários rígidos e a toque de caixa. É claro que a iniciativa própria deve aliar-se a um alto grau de disciplina e trabalho árduo para se transformar em royalties. Mas isto é puro bom senso, nunca a admissão de uma forma de escravatura. Os artistas não têm horários, têm disciplina. Além de formação adequada e paixão pelo que fazem. Um hobby também é apaixonante e possivelmente lucrativo. Mas realizar um filme ou encenar uma peça com limitações orçamentais, com o risco acrescido de ser um falhanço, é tão ou mais stressante quanto ser corrector da bolsa de valores. Existe sempre o risco de um crash monumental que inclui a direcção da Companhia, a produtora, o trabalho dos actores e dos técnicos, apoios e patrocínios, a vida familiar de todos e, em último caso, a saúde dos indivíduos.

Alguns de vocês podem até achar que estes mitos já não têm lugar na era contemporânea, quando se encara a Arte enquanto processo civilizacional, fundamental para a experiência e evolução humanas. Decerto que a afirmação da criatividade e do talento, o reconhecimento da importância da prática artística e a valorização das criações, desde as artes plásticas às artes de palco, percorrem transversalmente todos os sectores da sociedade civil. Mas a minha experiência junto do “homem da rua” diz-me que uma ditadura de mais de 40 anos, ligada ao analfabetismo cultural, deixaram marcas indeléveis no corpo da sociedade portuguesa. Endeusam-se alguns artistas, ao mesmo tempo que se implora por bilhetes à borla para teatros, salas de cinema e museus. Há que sair deste carreiro e entrar, definitivamente, no século XXI.

domingo, 3 de maio de 2015

A minha vida sem Bordallo

http://pt.bordallopinheiro.com/
A folha de couve. As andorinhas. O Zé Povinho. Rafael Bordallo Pinheiro (1846-1905), mestre do desenho humorístico (hoje diríamos cartoonista ), fundou a 30 de Junho de 1884 a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Dali saíram centenas e centenas de modelos de cerâmica artística, todos criados pelo seu génio. As peças do imaginário,  de inspiração naturalista, entraram nas casas dos Portugueses pela porta do orgulho - lembro-me de muita gente, familiares e amigos, mostrarem as loiças com a marca "Bordallo Pinheiro" inscrita na base, assegurando o visitante que, naquela casa (portuguesa com certeza), não se aceitavam imitações.

Em 2008 visitei a fábrica caldense, num dos piores momento da sua existência. Pareceu-me um espaço abandonado de um dia para o outro, devido a ameaça de bomba. Moldes, utensílios, desenhos, tudo quieto nas grandes mesas. À espera de um resgate que nunca mais vinha. Ao ver a loja aberta, adquiri um serviço de pratos; não fosse a fábrica fechar de vez e eu ficar sem o meu Bordallo de honra à vista no meu louceiro. Confesso: aproveitei  a semi-desertificação do lugar para meter o nariz em tudo. Por ali deambulei por mais de uma hora. Imaginei que tipo de operários possuíam a capacidade de trabalhar naquelas peças. Apenas alguns e muitíssimo especializados. Felizmente, as sua mãos amorosas regressaram, graças a um grupo privado (e não ao Governo, esse trapalhão, quando se trata de preservar Património), o qual recuperou a fábrica, assegurando a continuidade da produção. 

Não é necessário ir às Caldas da Rainha para conhecer a extensíssima obra de cerâmica de Bordallo, no seu esplendor criativo, provocador e de uma excentricidade ímpar. Em Lisboa, em pleno Campo Grande, existe o Museu Bordallo Pinheiro, uma das jóia museológicas da Câmara Municipal.

Todos os dias tomo as minhas refeições num dos meus prato Bordallo Pinheiro. Até uma fatia de pizza requentada no microondas ganha ali um outro estatuto. Quando a alma se alimenta de coisas belas e genuínas, comer fast-food torna-se na menor das nossas preocupações.
I  L O V E  5 6 0

sábado, 2 de maio de 2015

O bosque das mil visitas

          O b r i g  a d a,   f o r m i g u i n h a s!

Esta Encantadora de Formigas ficou encantada com o volume de carreiros de formiguinhas que visitaram este blog, num total de 1000 visualizações! Aumentou, também, a responsabilidade de continuar a desencaminhar as minhas queridas amigas dos seus carreiros (alguns deles bem entendiantes!). Caso tenham sugestões de encantamentos de "desencaminhar", escrevam-nas com letra bonita e depositem-nas em formiganocarreiro49@hotmail.com, uma caixa de correio guardada por um dos meus gnomos de confiança. Claro que também me coloco à disposição para responder aos eventuais comentários às minhas mensagens.
Bom, agora regresso ao meu recanto secreto, no bosque mais perto de si! 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O Homem da Enxada

Millet- O Homem da Enxada (1862) - 80x99cm

A IDEIA DO TRABALHO COMO VIRTUDE PROVOCOU UM ENORME ESTRAGO (Bertrand Russel - 1872-1970)


Hoje, minhas queridas e laboriosas formiguinhas, convido-as a passear fora do nosso carreiro para que observem comigo esta pintura de Jean-François Millet, "O Homem da Enxada".  O ideal deste pintor, da vertente Realista / Naturalista, era o de registar as personagens e ambiências do trabalho rural, enobrecendo-as enquanto lhes retirava qualquer romantismo bucólico. Com esta imagem do trabalho braçal, rude e sem outro auxílio salvo o da enxada neolítica, Millet expõem-nos, não somente um momento de suspensão do esforço, como todo um contexto em que é preciso trabalhar, trabalhar arduamente por cada punhado de trigo. Repare-se nas mãos apoiadas no cabo da enxada, na figura dobrada sobre a terra e, no que mais me impressiona: a boca. Uma boca de lábios entreabertos, onde se adivinha a respiração entrecortada pelo cansaço. Por que motivo me impressiona tanto a boca do "Homem da Enxada"? Porque aquela é a minha boca, a tua boca, a nossa boca. Os nossos lábios abertos, numa súplica de água e pão.

Como gostava, caras formigas, de elevar-me de alegria neste dia de cor amarela, o amarelo das coroas de flores entrelaçadas, algures no 1.º de Maio da minha infância, também um dia de celebração do trabalho vivificante da Natureza. Mas hoje deparo-me com o "Homem da Enxada" de Millet e reflito: a nossa visão do trabalho é tudo menos uma visão racional. Pela lei da evolução das sociedades (e não sou eu que o afirmo), as horas de lazer, destinadas à criação livre, constituiriam hoje a maior fatia do nosso tempo. Vejamos: usamos grande parte da nossa vida, uma vida à partida destinada à co-criação do Mundo nos seus infinitos aspectos, em tarefas especializadas. Mais: a troco de moedas que em muito nos são sonegadas. Não, nada disto é  racional. É quase uma atitude supersticiosa perante o trabalho: aceitamos a ilusão de termos sido criados criados para trabalhar, caso seremos punidos com a pobreza e a fome.

Mas basta ver o panorama actual, de pobreza e fome generalizadas, para se ter a noção da dimensão real de tal superstição, como se não bastasse inflamada por afirmações bárbaras, como aquela do "Ai, aguentam, aguentam!". Lembram-se?

 Chegou o momento de citar Agostinho da Silva
«O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta»
O "Homem da Enxada" de Millet não escreve nem lê poesia. Aguenta a jorna agarrado à enxada, aguenta-a até ao final dos tempos, porque assim o desejam os bárbaros, os mesmos que ainda crêem naquela tristemente famosa frase nazi: "o trabalho liberta".

terça-feira, 28 de abril de 2015

Somos juncos que pensam


Assumo que cresci libertina. No sentido de ter crescido num meio ecologicamente afastado de certos vícios culturais, como o da religião instituída. Fui educada para pensar, com todos os perigos que tal acarreta; em criança lia o que bem entendia, lia tudo o que não era "para a minha idade". Ainda sofro os efeitos colaterais de tal libertinagem, como existir sempre à beira do colapso moral. A Cultura (a exemplo da judaico-cristã), quer queiramos quer não, dá-nos uma base sólida. Os valores civilizacionais e as instituições que os prefiguram, idem. No meu caso, permaneço libertina, portanto invariavelmente frágil.

Conforta-me a frase do filósofo Blaise Pascal, "O Homem não é mais do que um junco, o mais débil da natureza, mas um junco que pensa." Acrescente-se que, também para Pascal, estamos condenados a habitar um Mundo injusto, pois a imaginação, essa coisa diabólica, toma por nós todas as decisões.

Num Mundo em que a imposição da razão sobre a imaginação pulverizariam os nossos julgamentos errados, todos os males seriam cortados pela raiz. Seriam erradicadas as guerras, as desigualdades sociais, as doenças...hummm, demasiado simplista, não acham? E se a imaginação, a tal fraqueza do junco pensador, for de facto aquilo que o torna robusto perante os vendavais da existência? A imaginação pode muito bem conduzir-nos ao erro e é com os erros que mais sofremos. Paradoxalmente, caso deixarmos de sofrer, deixamos de criar. E se não criamos, espera-nos um Paraíso com aparência de casa de repouso: asséptico, rotineiro, em última análise, povoado de gente submissa.

Amigas formigas pensadoras: caso a nossa debilidade residir na imaginação, então optemos permanecer frágeis, mas com a tal capacidade admirável de nos dobrarmos até ao limite da robustez da nossa fibra. Somos débeis, mas resistentes. Pensamos, logo resistimos. Tudo o resto  é civilização.

domingo, 26 de abril de 2015

Abril a Quatro Mãos

Abril a Quatro Mãos: Grândolas

Foto: Arménio Belo
Abril ainda vinha longe. Esta vossa Encantadora subia em direcção ao Chiado, com os dedos fininhos e gélidos da aragem do fim de tarde lisboeta arranhando-lhe os ossos. Dobro a esquina da Rua Nova do Almada e diante da montra da Loja da CNM (Companhia Nacional de Música) deparo-me com o abraço caloroso entre Mário Laginha e Bernardo Sassetti (1970-2012). Abril ainda vinha longe, mas antecipei-me à Primavera e entrei naquela que é a loja de discos mais antiga do País, cuja estrutura remonta ao século XIX.

Interior da loja CNM
Solicitei a escuta de "Abril a Quatro Mãos: Grândolas", sabendo à partida que o iria comprar. Gravado em 2004 (pelo 30.ºAniverário do 25 de Abril) e reeditado dez anos mais tarde, às composições directamente ligadas à temática da Revolução (com destaque para Zeca Afonso) juntam-se, por exemplo, "We Shall Overcome", o hino do Movimento dos Direitos Civis nos EUA e "A Internacional", num total de dez temas que fazem deste disco um libelo universal à Liberdade. Reconhecem-se "Venham mais cinco" e, claro, "Grândola Vila Morena", mas com a marca da cumplicidade estilística entre os dois pianistas.  Um disco de Jazz? Talvez. Mas decerto  um produto de excepção, gravado numa maratona de 24 horas nos Estúdios da Valentim de Carvalho.
Para escutar na total Liberdade de um segredo. E, se assim o quiserem, em oração atenta à memória de Bernardo Sassetti.

I LOVE 560

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Os cães dos deuses


«Nós, que empreendemos e pensámos / que pensámos e empreendemos / temos que deambular e esgueirar-nos / como leite derramado numa pedra.» W.B.Yates
Nestes tempos difíceis, erguem-se altares às pequenas vitórias. Uns cêntimos na "raspadinha" já nos serve de tema ao jantar. Nestes tempos difíceis, o postal na caixa do correio que substitui o email a pedir-nos tarefas absurdas; o sussurro inesperado ao ouvido e não o grito ditatorial; o café oferecido, ao invés da chávena fria ao balcão; dois minutos ouvir os pássaros, entre um automóvel e outro, tudo isto nos faz gratos pela vida que temos. Patético. Queridas formigas pensadoras: olhemos as "pequenas coisas" que nos deixam felizes enquanto meros bombons caídos de um Olimpo invisível, para diversão dos seus habitantes imortais. Os nossos pretensos donos moram numa montanha inatingível, onde se empanturram de ambrósia, praticam o amor sem convenções, assistem a peças de teatro em sessões contínuas e escutam a música da lira do alvorecer ao entardecer. Este lugar, em que o próprio pensamento de desejo produz a sua satisfação, é-nos interdito.


Nós, os pretensos animais de estimação dos deuses, habituámo-nos, desde sempre, a rasgarmos a carne para voltarmos a cosê-la. Contudo, sofremos e voltamos. Rezamos e voltamos. Erigimos altares onde depositamos oferendas. O nosso pensamento mágico encarrega-se de ampliar a ilusão: a nota de euro encontrada no bolso do velho casaco, os semáforos verdes, o assobio no cimo do andaime, os sorrisos trocado na carruagem do metro, vemos em tudo isto recompensas. Maná do céu. 

Os "bombons" caem ao capricho dos deuses para nos verem entretidos. Entretidos e carentes, numa procissão de suplicantes atravessando a rua escura. As recompensas pelos nossos sacrifícios são, na verdade, simples entretenimentos olímpicos.

Mas os tais deuses, ao dar-nos por dóceis, subservientes e fiéis às suas mentiras de que "tudo está a correr pelo melhor", desconhecem que, entre um bombom e o outro, existe um intervalo chamado paciência. Ora, a paciência tem limites, até os bichos mais bichos um dia esgotam-na. Sim, agradecemos os tostões, o postal dos correios, o café de graça e o chilrear nas árvores. Mas um dia destes quereremos mais. Pois somos mulheres e homens que pensámos e empreendemos, num tempo anterior à contagem dos séculos. Somos merecedores da cornucópia da abundância; foi essa a promessa dada e queremos vê-la cumprida.

Quanto aos deuses, num único dia de revolta, em que o seu fogo lhes será roubado pela nossa inteligência humana, perderão de vez o nosso sofrimento que os alimenta, serão deixados à míngua e por fim encarcerados na sua imortalidade indesejável.