quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Intrusos e Abusivos

Intruso: do dicionário, intrometido; aquele que se introduz sem direito


A minha casa é o meu castelo.  Se alguém pernoita no chão de palha da minha sala, até o convido para o pequeno-almoço, pois decerto é amigo. Mas quem se enfia por debaixo da porta, qual barata dissimulada pelo lusco-fusco, é decerto mal-vindo. Mas também acontece escancararmos a nossa casa, sem adivinhar que o nosso chão, uma vez pisado por certa figura, nunca mais será o mesmo. Refiro-me ao Intruso. Aquele ou aquela que só pede permissão para entrar uma vez transposta a soleira da nossa porta.

Antes de sequer pensarmos como tal aconteceu, abre-se-lhe um sorriso sedutor (acompanhado pelo tom invejoso na frase exclamativa "Bem gira, a tua casa!") e eis que nos informa:  olha, vou mudar de apartamento, mas só me dão a chave daqui a  dias... estou um bocadinho à rasca, sem lugar onde por as minhas coisas...Interrompes: alugas um contentor, queres o número da firma? E ele/ela, não, é só por uns dias e como soube por Fulano que tens arrecadação...posso, não posso, guardar umas coisinhas na tua arrecadação? Atarantada pelo pedido imprevisto, qual coelho paralisado pelos faróis de um carro, dizes sim, tudo bem. Temos de ser uns para os outros.

Muitos filmes de terror começam assim, com a cedência de uma vítima inocente ao agressor disfarçado.  Três, seis meses, um ano, a tua arrecadação, permanece cativa dos bens preciosos do teu Intruso, das "coisinhas" que afinal se revelam enormes volumes empilhados até ao tecto. Decides agir. Pegas no telefone e eis que escutas a seguinte mensagem: "O número que ligou não está atribuído". 

Passam-se mais alguns meses, Fulano diz que o viu passar ali, Sicrano jantou com ele acolá, mas a ti, Formiga ingénua, nem uma mensagem, nenhuma explicação, nenhuma desculpa, e quantos meios para o fazer! Por simples delicadeza. Gentileza. Educação. Tu, amiga Formiga, que foste educada para nunca deixar pegadas em casa alheia, vês-te aflita a esfregar a marca das patorras que teimam ferir para sempre o teu soalho sagrado. As pegadas do Intruso. Mais, do Intruso Abusivo, que apenas te vê como um depósito de acesso fácil, o descanso final para uma vida de que ele tanto se quis desfazer, sabem-se lá os motivos.

No meu caso, após três anos  esgotou-se-me a paciência. Dirigi-me à arrecadação e coloquei mãos à obra. Despejei os maus odores daquele Intruso na vala do lixo comum, ao mesmo tempo que me surpreendia com os conteúdos dos sacos, sacolas e caixas:   desde mercearias estragadas, a caixas de medicamentos vazias, escovas de dentes usadas e t-shirts esburacadas, jornais semi-desfeitos...no fim de contas, "bens" que se revelaram lixo, puro lixo. E como lixo, no lixo os depositei. Decidida e sem remorsos. Com a sensação maravilhosa de me ter livrado de alguém que, nunca dando de si, me mantinha refém da sua presença.

Caras formigas: uma das suas características mais comuns dos Intrusos e Abusivos é aparecem na vossa vida sem qualquer aviso prévio. Eles não pedem licença, eles não pedem desculpa, eles somente se aproveitam do outro para obterem privilégios. Ao primeiro sinal de manipulação psicológica (Bem gira, a tua casa, etc..), açoitem-lhes o pêlo sem misericórdia, como se faz às baratas e a semelhantes enganos de deus. Eis o Encantamento de hoje. Boa noite!


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tempo sem fronteiras

Entrava Agosto e meu avô declarava: "Primeiro dia de Agosto, primeiro dia de Inverno". Acreditem ou não, nesse mesmo dia acabava por chover. Isto é real.



Passado, Presente e Futuro.  Dizemos com naturalidade "O que passou, passou", "O futuro o dirá" e, claro, o famoso "Carpe Diem" do filme "O Clube dos Poetas Mortos". Enunciações que o vulgo repete a torto e a direito. Contudo, para certos cientistas, os da Teoria das Cordas, tudo acontece aqui e agora, em Universos Paralelos. Ilustre-se: enquanto escrevo este texto, um T-Rex atravessa o plano da janela à minha frente. Ops!

O Tempo, medido em horas, minutos e segundos, regra absolutamente acreditada a partir do século XVII com a invenção do relógio mecânico, é o tempo que se adapta à nossa necessidade de padrões confortáveis, num quotidiano falível e caótico. Balizas quantificáveis para o que se pode ou se deixa de fazer. Padrões de sono/vigília, padrões de lazer e trabalho, padrões de invocação e silêncio... milhões de rituais para tudo e mais alguma coisa. Acordar, escolher a roupa do dia, entrar no comboio, meter a chave à porta, adormecer...o início, o meio e o fim, repetidos qual melodia minimalista ao longo de uma vida. 
Queremos, desejamos, previsibilidade (para depois nos queixarmos dela!).

Regressemos aos teóricos dos multiversos. Coíbo-me de entrar em pormenores (acompanhados pelos incidentes grosseiros de quem coloca pé em seara alheia), mas tal ouvi dizer pelos ditos físicos: o que existe, apenas existe porque nós o observamos. Como no jogo infantil, em que a mãe cobre a cabeça com o lençol e o bebé diz, "Mamã não tá!", cremos somente naquilo que se revela pela nossa vontade. Vemos o que queremos ver.  Mas o T-Rex diante da minha janela coexiste com a batalha de Waterloo no espaço da sala e, imagine-se, com um concerto dos The Doors no interior do meu chuveiro! Tudo, tudo, tudo, aqui e agora. Que visão extenuante! 

As primeiras estrelas do primeiro Universo brilham ao alcance de um telescópio - observar as estrelas é observar o passado, todos o sabemos. Contudo, permanecemos crianças num quarto de brinquedos a brincar ao "Tá? Não Tá!", fiéis aos relógios que tiqueteiam a marcha da nossa vida, sobre uma hipotética linha de tempo, traçada por certa deidade geómetra!

Na esquina de um mundo alternativo qualquer, lugar onde o tempo faz a curva, rapariga choca com rapaz.  Ela sou eu, bastante mais jovem, tal como tu, na casa dos vinte e ainda com os pés timidamente assentes no tabuado do teatro. Aqui e agora. Eis-nos. Mas não nos vemos. Tu e eu, a batalha de Waterloo, o T-Rex na janela e os The Doors no chuveiro, a realidade invisível. Invisível e cruel. Nada somos um para o outro até arrancarmos o lençol entre os nossos dois mundos. Até nos dedicarmos a observar aquilo que, à partida, não deve, não pode, ser real.

Mas um dia vou conseguir acertar no Encantamento e, numa noite qualquer, olharei para ti e logo ali me verás. Caso prolonguemos o momento da observação seremos, à vez, um olhar sobre uma estrela. Não há tempo. Apenas Espaço. Assim o dizem os tais cientistas.

Filme a ver:
O que Raio Sabemos Nós?


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A magia do número 2000

Obrigada!

Ora, andava eu de passagem à beira de um rio, quando certa formiguinha parou a sua marcha para me avisar: "Encantadora,  já somos dois mil!". Seria o aviso de uma praga? De regresso à minha cabana (com wi-fi) confirmei que o número 2000 correspondia, nem mais, nem menos, ao número de visitantes a este blog desde o primeiro post no final de Maio! Hoje (07/08/2015) o número subiu para 2022 espreitadelas! Prometo, leitores curiosos e atentos, continuar nesta demanda de encantamentos, partilhando-os convosco e na melhor das boas vontades. Quantas mais forem as formigas que espreitam os encantamentos que aqui se dispensam (e os aplicam, espero eu!), mais feliz e motivada estarei para imaginar e fabricar outros tantos. Obrigada, queridas formigas, por acreditarem que, deste lado da floresta, existe alguém dedicado a encantamentos capazes de  vos desviar - nem que seja por alguns minutos - de certos carreiros entediantes. Aguardem pelas novidades!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Da invisibilidade da mulher madura

«Ser é ser percebido»

George Berkeley (1685-1753)


Em tempos dei por mim no grupo de pertença que então rotulei como o das "mulheres quase invisíveis"; esclareça-se, o grupo das solitárias e maduras. Quanto ao outro, o grupo das mulheres casadas, unidas de facto, entre outras modalidades de se estar junto, existe sempre algo que as coloca na ribalta: o nascimento de um novo rebento, um aniversário comemorado entre casais do mesmo "círculo de confiança", a presença de ambos em festas e celebrações com fotógrafo contratado (venha mais um clique a confirmar o dois-em-um), ocasiões muitas vezes reveladas, sem pudor, nos murais ele/ela do facebook. Não, isto não é inveja - é a constatação científica de um facto: o status concedido à mulher casada, versus a despromoção social da mulher sozinha e madura a qual, ao consentir divorciar-se ou meramente manter-se solteira, torna-se naquele bico-de-obra quando se trata de compor uma mesa de copo-de-água /baptizado/ bodas: colocamos fulana ao pé de fulano?, por deus, não, lembra-te que fulano agora tem namorada, aquela australiana, como explicamos depois a foto dele perto de fulana? então sentamo-a na mesa 10?, por deus, não, são todos casados e sabes como fulana é gira e como sicrano gosta das giras! Então onde a sentamos, estou a ficar farta, nisto há uma hora!...instala-se o desespero até tudo se resolver numa epifania: a mesa dos miúdos! Estás louco, vais sentá-la com...? Sim, até vai ser bom, perfeito, pois fulana tem jeitinho com crianças e até pode entretê-las. Ufa! Vá, embora telefonar ao tipo do bolo!
Minhas caras formigas, divorciadas, solteiras ou viúvas: quando vos sentarem à mesa da linda menina das alianças e respectivos amiguinhos, quero-vos atentas a este primeiro passo no caminho sem retorno da invisibilidade social. Podem até discordar comigo, mas esta Encantadora acumulou experiência suficiente para, do alto da sua árvore mágica, gritar aos quatro ventos: "Zeus nos livre de nos transformarem em números ímpares!". De igual, não aconselho o recolhimento. A solidão, uma vez companheira de sofá, refastela-se num comodismo arrastado até à morte, diante da TV. Contra a invisibilidade corrosiva do corpo e da alma, confio apenas no seguinte Encantamento: Apercebam-se do quanto são interessantes. Sim, não chega cuidar da imagem, para manter uma audiência que vos respeite - sirvam-se das vossas histórias de vida, que já são muitas e plenas de colorido. Riam-se, tomem-se menos a sério. Revelem-se frágeis, revelem-se duras.Verão como o o número ímpar da mesa (vocês) se desdobrará em múltiplos infinitos. Podem não ter marido ou filhos, mas escrevem, pintam, gerem empresas, companhias de teatro, escolas. As histórias que daí derivam são os nossos filhos e maridos. Falem deles como os casais de facto conversam sobre os seus: apaixonada e despudoradamente. Quando deres por ti, solitária formiga, alguém irá lembrar-se de perguntar porque diacho estás sentada no lugar errado da festa e, num impulso sem precedentes, pedirá a tua mão para dançar. Palavra de Encantadora!

Aconselho esta leitura divertida:

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Manipular a mente em 10 passos


Ao início deste mês, podem confirmá-lo, o gigante Noam Chomsky esteve em Portugal. Com grande pena, esta Encantadora não esteve lá, na Fundação Calouste Gulbenkian. O que não me impede me debruçar sobre a as ideias deste gigante de 86 anos, o qual afirmou (e continua a afirmar) que a opinião pública pode e é controlada segundo 10 princípios, extremamente simples. 
As formigas que quiserem permanecer no carreiro da ilusão reconfortante, oferecida em toneladas de informação pelos média, não leiam a seguinte lista: 

AS DEZ ESTRATÉGIAS PARA A MANIPULAÇÃO E O CONTROLO DA OPINIÃO PÚBLICA (adaptadas da lista de Chomsky):


 1) DISTRACÇÃOhá que fornecer aos carreiros de formigas montanhas de informações secundárias: gatinhos salvos pelos bombeiros, batalhas de chefs da alta cozinha, entrevistas a formiguinhas ao sol na praia e, pois claro, muitas, mas muitas peças sobre futebol. A segunda parte do plano é espremer, em blocos muito pequeninos, temas como arte, ciência e tecnologia, tornando-os meros intervalos entre as notícias ditas "importantes". Objectivo principal: consumirmos apenas no que não interessa à nossa evolução.


2) MÉTODO PROBLEMA-REACÇÃO-SOLUÇÃO: abrir as notíciário com um problema ou uma situação de emergência social (se não houver, há quem invente algum), lançando-se a semente para uma reacção pública em grande escala. Surge, então, uma formiga "salvadora", a qual impõe medidas para fazer desaparecer o problema. O caso mais gritante foi o nosso Governo, ao arrepio da "crise económica", fazer desmoronar os edifícios essenciais, como a Saúde, a Educação e a Justiça. O mais assustador  é que a "situação de emergência" já estava pronta a servir, bem como as respectivas "soluções".

3) GRADAÇÃOapanhados no sono da consciência, assistimos à  aplicação de medidas que, caso estivéssemos mais alertas, jamais deixaríamos passar como brancas nuvens, dada a impopularidade das mesmas. Gradativamente, de forma imperceptível, são-nos retirados os direitos. Quando acordamos, acordamos desempregados ou a trabalhar mais horas por cada vez menos contrapartidas salariais. "Portugal tem salários competitivos", disse uma vez Teixeira dos Santos. Na modesta opinião desta Encantadora, os salvadores da Pátria não passam de psicopatas sociais.

4) SACRIFÍCIO FUTUROpreparar a resignação das massas, com vista a aceitação de uma premissa, obviamente nefasta, como aquela de se cortarem nas pensões para assegurar a sustentabilidade da Segurança Social. A promessa deste e outros serem  "sacrifícios necessários" para o Futuro dá-nos a esperança (ilusória) de que os mesmos serão minimizados. Quando as vozes indignadas se silenciarem, já no próximo Inverno os indivíduos mais vulneráveis estarão em risco de morrer de frio. Uns por falta de pagamento da electricidade, outros porque passaram a viver na rua.

5) DISCURSO PARA CRIANÇASfalam-nos como se fôssemos crianças ou deficientes intelectuais, com base no discurso gasto de que "tudo irá correr bem caso fizeres assim ou assado". Se repararem, os nossos políticos, estejam ou não no poleiro, tratam-nos com insidioso paternalismo. São os beijinhos nas bochechas das feirantes, o sorriso+festinha na criancinha institucionalizada, os apertos de mão aos doentes deitados (há horas) em macas de corredor, actos que obtêm, em muitas formigas desatentas, uma resposta emocional compatível.

6) SENTIMENTALISMO E TEMORnuma das minhas viagens aéreas, um comissário de terra tratou-me, à vista de um carreiro de passageiros, como potencial terrorista. Colaborar civicamente na verificação das bagagens é uma coisa. Outra, é estar na porta de embarque e ser alvo de escrutínio. O funcionário, sem o saber, estava a tentar retardar a minha resposta emocional, atemorizando-me. Podia igualmente apelar ao sentimentalismo (a vida dos passageiros depende da colaboração de todos!), que o objectivo era o mesmo: controlar as minhas emoções inconscientes. Deu-se mal. Apresentei queixa à Companhia. Reagi quando não era suposto reagir. Saí do carreiro.

 7) VALORIZAR A IGNORÂNCIA E A MEDIOCRIDADEinverter a pirâmide do mérito e dar o máximo de tempo de antena a gente desqualificada, medíocre, inculta e ignorante. Realizar este intento é manter a capacidade crítica dos espectadores, principalmente dos mais jovens, no nível mínimo. A mediocridade dos habitantes da "casa dos segredos" foi o pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar dos nossos alunos. Não admira que as escolas se deparem com gente tão estúpida, quanto arrogante. Há quem se gabe de nunca ter lido um livro.

8) DESPRESTIGIAR A INTELIGÊNCIAnão raras vezes,  o "cientista louco" e o "nerd", personagens-tipo da ficção televisiva/cinematográfica, são apresentados como inadaptados, anti-sociais e perigosos, no extremo do estereótipo. Ora, nenhum jovem quer ser visto como anti-social, pelo contrário. Desprestigia-se a racionalidade e o sentido crítico, apresentando-os como exemplos a não seguir. Se juntarmos a esse factor (a despretigiação da inteligência) ofertas educativas de baixa qualidade para os pobres de espírito, estes sentir-se-ão plenamente integrados no "sistema". A moda é ser ignorante. 

9) INCENTIVAR E INCUTIR A CULPAquando o fracasso bate à porta, a culpa vem logo atrás. Para acentuar essa auto-culpabilização, os média oferecem-nos, em prime-time, a visão espectacular de "gente gira". A celebridade, a riqueza, ou até mesmo a beleza, apresentam-se em regime de exclusividade para meia-dúzia de indivíduos. Aos restantes, cabe o enorme espaço da resignação, reservada às formigas que trabalham, trabalham e quanto mais o fazem, mais derrapam para o anonimato, tendo como bónus a depressão. Julgam estas formigas "terem feito tudo mal", ao invés de agirem como a celebridade X ou Y. Caras formigas,  a solução reside na rebelião contra a injustiça social e económica. 

10) MONITORIZARpara um dado esquema resultar, há que monitorizar constantemente os seus factores e variáveis. Os donos do poder, utilizam as redes sociais, os avanços nas áreas de psicologia e neurobiologia, entre outras ferramentas do foro das ciências, para anteciparem e controlarem os nossos comportamentos. Essas formigas (que se julgam gigantes), julgam que nos conhecem melhor dos que nós nos conhecemos a nós próprios. Até certo ponto, sim. 

O Encantamento para hoje: liguem a TV à hora do telejornal. À luz das ideias de Chomsky, observem o que se desenrola no écran como se estudassem um mundo totalmente diferente. Usem também o "filtro Chomsky" quando alguém quiser impor uma medida impopular, seja no vosso formigueiro, seja no formigueiro vizinho. Caras formigas: não sejam vítimas. Recusem-se a sê-lo. Basta pensarem de forma crítica acerca das ideias que querem impor-vos. Depois, ajam em conformidade. Uma dica final: comecem por um livro de reclamações. Qualquer um serve.

domingo, 24 de maio de 2015

O nosso Caderno Azul

«Eu costumava comprar esses cadernos quando ia a Lisboa. São muito bons, muito resistentes. A partir do momento em que começamos a escrever neles, nunca mais nos apetece escrever em coisa nenhuma.» Paul Auster.

Escrever à mão é bom. Nada é mais rápido do que a mão humana, quando se trata de fazer correr encantamentos à velocidade do pensamento. Escrevo à mão praticamente tudo - chego a escrever notas manuscritas antes de me sentar diante da tela branca de um futuro post. Parece algo de outros tempos - escrever textos à mão - mas faço-o e tenho um óptimo incentivo para tal: o meu caderno azul. Na verdade, não é apenas um, mas dezenas de cadernos cheios de notas íntimas, formulações de pensamentos, anedotas diárias...enfim, o meu "querido diário" tem a capa azul dos cadernos portugueses da Firmo, os mesmos referidos como jóias de estimação pelo escritor norte-americano Paul Auster. No seu livro, "A noite do oráculo", a personagem-escritor percorre as ruas de Brooklyn em busca do "caderno português". Feita a aquisição, e logo no dia seguinte, a loja do chinês que os vendia encerra sem qualquer explicação. Sidney Orr (o alter-ego de Auster), começa a escrever no caderno português e eis que a sua realidade, sob o misterioso efeito das linhas azuis, entra num labirinto de sonhos.  

Neste romance de Auster, o que era aparentemente linear, deixa de o ser. Cada página, uma vez escrita, inaugura uma miríade de mundos alternativos. No fundo, o "efeito caderno azul" de Auster é a metáfora do que é ser escritor - submeter-se à supensão das dimensões do tempo e do espaço, a realidade distorcida ao ponto de nos perdermos num labirinto de possibilidades.

http://www.loja.avidaportuguesa.com
O caderno azul da Firmo exibe um físico robusto, pela capa dura que o reveste. A encadernação é irrepreensível e as suas folhas, de uma gramagem equilibrada, espessas o suficiente para impedir a repassagem da tinta, sem chegar ao tacto grosseiro. Relançado pela Marca em Janeiro de 2012 na Paperworld, em Frankfurt, 60 anos após a sua criação, de objecto de mercearia de bairro elevou-se a caderno de culto. O blue note de Auster tornou-se no caderno mais português da América.
Um Encantamento a descobrir.
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terça-feira, 19 de maio de 2015

Amanhãs que não cantam - sibilam

Só espera quem está desesperado. Eu não espero nada. Os amanhãs que cantam, como um dia disse o poeta, colidem frontalmente com as actuais circunstâncias. Portanto, o melhor é deixar de circular por uns tempos. Se calhar, até desaparecer.

Circular  24 horas sobre 24 tornou-se mais que cansativo - uma rotina sem objectivos. "Viver todo os dias cansa", escreveu um dia Pedro Paixão e só agora, no centro do turbilhão das circunstâncias, é que me cai a ficha e percebo a frase, antes julgada  frase fútil,  pura auto-comiseração. Olhem que cansa, cansa e muito.

Os meninos fazem exames. Os meninos batem uns nos outros e à medida que crescem, vão batendo mais e com ainda mais força. Já mulheres e homens, deslocam-se aos estádios de futebol e partem tudo. No dia seguinte, de ressaca, levam os filhos aos exames, os mesmos que também hão-de crescer agredindo-se uns aos outros, vandalizando outros estádios. Mantendo-se o padrão, eis que a selvajaria se instala no mapa genético das famílias. Apesar dos exames, das toneladas de horas de Matemática e Português, das reuniões de Conselhos de Turma por causa do aluno tal e tal (coitadinho, teve uma infância difícil, percebe-se que tenha assasinado a mãe quando ela quis tirar-lhe o telemóvel. Se passa de ano?, claro que passa!), após o corpo de intervenção formado por psicólogos escolares, pedopsiquiatras e professores exaustos ter esgotado todas as estratégias, redigido planos de acompanhamento e papeladas que não lembram ao demo, o córtex pré-frontal das massas vai, democraticamente, regredindo, e o que resta é o instinto do "ataca ou foge", o instinto do lagarto.

Nos amanhãs sem cantigas de amigo, milhares de lagartos e lagartixas irão deslizar sibilinamente pelas ruínas daquilo que foi o Marquês de Pombal. Vão rastejar da Avenida da Liberdade ao Rossio. Também aí, pouco restará, os cafés servirão sandes de lixo aos novos répteis. No Chiado, a escultura de Fernando Pessoa será substituída por um grande lagarto sentado. E onde dantes havia a representação da chávena de café, veremos um modelo miniaturizado de ser humano.

Antes que tal profecia se cumpra, vou comprar o meu bilhete para um lugar mais evoluído da Galáxia, pois conheço bem as lagartixas da minha terra e só de as imaginar crescidas e sentadas em mesas de escola, leva-me a fazer já as malas e enfiar-me no tubo de teletransporte. Quem quiser que venha e traga um amigo também. Mas depressa, a ameaça dos répteis está próxima. Tenham medo, tenham muito medo.

domingo, 17 de maio de 2015

António Zambujo sim, fado assim-assim


Cresci numa casa onde se escutava Carlos Paredes e António Chaínho (entre muitíssimos outros), portanto não se trata de negar a minha portugalidade, dado o título deste post. O que está em causa são factores como a pungência do tom fadista, a fatalidade algo doentia e, claro, o destino (fado) a que estamos sujeitos - por tudo e por nada, eis-nos despojados de vontade própria e entregues a um deus que, invariavelmente, escreve-o por linhas tortas. Ouve-se de vez em quando, até se gosta, mas insisto na dosagem homeopática. Muito fado é demasiado fado e nós, um dos povos mais depressivos do Sul da Europa, não precisamos exceder-nos em motivos para afogar mágoas no álcool ou nas drogas de farmácia.

Sendo regra, eu não possuir um único disco de Fado, a mesma traz consigo a excepção: António Zambujo. Mais que fadista, um trovador que, em meu entender (alguma formiga mais informada pode discordar) não teme influências de géneros, quer dos brasileiríssimos Chorinho, Choro-canção e Bossa Nova, da polifonia das vozes búlgaras ("Chamateia"), sem contornar o Cante Alentejano, não fosse António nado e criado em Beja.

António Zambujo Tem uma forma própria de acolher o género, inculcar-lhe um destino diferente, contemporâneo, no seu traço vocal mais ou menos intimista, muito, muito longe do registo esgoelado de alguns intérpretes do fado tradicional. Ele até pode cantar "Nem às paredes confesso", mas não me deprime, antes faz-me imaginar raparigas do Sul sentadas sob os sobreiros, entoando os seus amores proibidos. O Fado de António Zambujo não nos submete à tristeza, mas revela-nos como se pode aceitar a vida tal como ela é, sem arroubos de desespero.

Ontem à noite (16/05/2015) tive o privilégio de ver ao vivo António Zambujo. Apesar do concerto terminar com o tema "Guia", o qual me relembra o meu próprio fado, deitei-me imbuída de um sentimento de aceitação. Sem dramas de xaile negro.





 I    LOVE     560

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A tortura do escorrega

Apesar de só ter entrado na escola em Janeiro, ela já sabia ler. E desenhava bem. Isso bastou. O carreiro de formiguinhas de bata cor-de-rosa uniu-se para dar uma lição à menina nova. Parecia fácil: era demasiado pequena para ter 6 anos. O carro do pai da menina também era pequeno. Pois, mais fácil não podia ser. 

Constituiu-se uma milícia, com um plano em três fases: 1 - Caso a professora elogiasse a menina nova, as formigas erguiam as antenas e entreolhavam-se com sorrisos maldosos, numa espécie de sinal  (a menina levou tempo a perceber a ligação entre esses dois fenómenos).  Fase 2 - tocava a campainha, o longo carreiro de formigas, do 1.º ao 2.º ano, seguia para  recreio, com as formiguinhas cor-de-rosa na dianteira. 

Era exactamente no recreio, com um simples escorrega de ferro e madeira, que a tal milícia se organizava em dois grupos: o primeiro obrigava a menina a subir os degraus do escorrega, enquanto que ao segundo cabia balançar-se na parte de baixo, tomando assim impulso para pontapear-lhe com força as pernas nuas. Fase 3 - Ameaçar: se contares, amanhã matamos-te! Em casa, a mãe, que nódoas negras são essas, fui eu que caí, mãe. Ela não queria morrer no dia seguinte. Os altos degraus de ferro custavam a subir. E elas eram muitas. Aí umas dez. 

A menina nova começou a relacionar a suas boas notas com a tortura do escorrega. Resolveu defender-se. Passou a ler mal, ao mesmo ritmo descompassado das colegas. Os desenhos, deixava-os a meio, não fossem ficar bonitos de mais. A mãe estranhou os maus resultados, foi à escola, fez perguntas à professora e esta, por sua vez, indagou as funcionárias que vigiavam o recreio. Sim, elas sempre tinham estado ali. Na verdade, enquanto decorria a tortura do escorrega, a menina via-as virar a cara para o lado. As formigas da milícia eram filhas de "gente bem", gente com dinheiro. Com o poder de tirar-lhes os empregos. Uma dela nunca mais apareceu. A directora do externato também castigou algumas das formigas cor-de-rosa. Nem todas, uns quantos cheques compraram silêncios e omissões. 

Hoje, ela ainda olha para um escorrega como se olha para para um objecto de tortura.  Basta um simples brinquedo para a crueldade ter um instrumento para se consumar. Quem diz brinquedo, diz arma. Diz bomba. Diz silêncio.

domingo, 10 de maio de 2015

A cozinheira de Salazar

A Cozinheira das Cozinheiras


Rosa Maria, a autora deste livrinho, logo na  introdução, não perde tempo a esclarecer-nos quanto ao statuts do caldo nas mesas portuguesas do Estado Novo: «É o primeiro prato de todas as mesas, e o único, quase sempre, da gente pobre». Mas não se fica por aí: «O caldo, nas mesas fartas, prepara o estômago para receber os pratos que se seguem.» Uma pérola, estas linhas de Rosa Maria, a cozinheira das cozinheiras do Regime Salazarista. 

Mais que um livro de culinária, "A cozinheira das cozinheiras" é um tratado sociológico dividido em centenas de receitas. Basta abri-lo ao calhas e salta-nos a receita do doce "espera marido", que ainda por cima pretende que se atinja um "açúcar em ponto de espadana". Seja lá o que isso for, parece moroso, quase um procedimento laboratorial.
No livro de Rosa Maria, todas as receitas que incluem animais não dispensam depenar-se primeiro a galinha, lavar os intestinos ao porco, chamuscar e limpar as vísceras ao pato e esta piéce de resistance que é embriagar perus com vinho branco antes da matança, embora com o toque de misericórdia de "ir entretendo esta embriaguez até à ocasião da morte, para que esta seja suave". Isto divide créditos com algumas séries policiais americanas. Mas Rosa Maria estava longe de ser uma mente criminosa, nem sequer um alvo dos actuais grupos de defesa dos animais. A nossa Rosa não passava de uma das "cozinheiras de Salazar", que, à imagem do ditador, admitia com simplicidade a tortura de seres vivos no local de trabalho (leia-se calabouços da Pide). E, como se deduz, manter a condição feminina de barriga encostada ao fogão, com um peru aos tombos pelo quintal.

Por falar em barriga, a contra-capa do livro também não nos desilude, quanto ao seu grau altamente educativo. Aqui, anuncia-se o próximo volume: "Fecundação, gravidez e parto", de um tal Ch. Vernau, "Livro indispensável a todas as mulheres, para que conheçam a sua nobre missão procriadora (...) um volume profusamente ilustrado, com gravuras a preto e a cores.» Brrrrr.

Este livro de culinária, com a chancela da Civilização Editora (outrora Livraria Civilização)  foi-me oferecido por piada, mas na verdade já experimentei algumas receitas. Saltei as partes malignas e obtive bons resultados. Quanto às formigas que não cozinham de todo, adquiram-no para atirá-lo às ventas de quem  se atrever a comentar "o bem que o doutor Salazar fez ao nosso país." O mesmo país onde os caldinhos dos pobres e os caldinhos dos ricos mantinham a boa ordem social. A bem da Nação.


I LOVE 560