sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Tropa de Elite

À hora certa, alinham-se contra a  parede, devidamente equipadas e prontas para a acção. Antes deste grupo, um outro exercita-se até ao limite correndo e saltando com pesos agarados às pernas. O suor escorre pelos decotes, os cabelos desalinhados parecem ter ganhado o peso da chuva. Dali a pouco será a vez do carreiro seguinte, igualmente obediente à voz de comando: "Um, dois, três, salta! Um dois três, esquerda, direita!", "Vamos, vamos, vamos!". A nenhuma destas formigas ocorre desistir - alinhadas neste carreiro de "upas, upas!", enfrentam a luta contra um inimigo comum: o peso, ou melhor, o excesso dele. 


O primeiro grupo sai do estúdio, retira os pesos, o esforço formou um coro de ofegantes. É o próprio treinador que pega numa esfregona gigante para limpar o chão das águas do suadouro, preparando assim o espaço para um carreiro fresco. Entretanto, no estúdio vizinho, um punhado de formigas luta corpo a corpo com máquinas de fazer abdominais, de firmar glúteos e oblíquos, de alongar costas e levantar peitos, tudo isto ao ritmo binário de uma música de discoteca. Os exercícios têm designações como "GAP", "Body Pump", "Sh'bam", "Body vibe", sendo o denominador comum o ritmo frenético, a repetição (algo sádica) de movimentos e o suor, ah, o suor, indicador máximo que ali se gastam calorias e se abate a gordura acumulada porque (palavras da nutricionista de serviço), se vivenciaram "maus hábitos de vida".  A dar corpo à luta estão carreiros e carreiros de donas-de-casa, funcionárias públicas, gerentes, dirigentes, quadros superiores e empregadas de limpeza, todas formando uma tropa homogénea, dir-se-ia democratizada. Ali são todas iguais, desde o género ao vestuário, desde a vontade de acudir à necessidade de manter uma forma impecável, à situação de, antes de tudo, serem quase todas esposas e mães. Mais que uma tropa, uma verdadeira Tropa de Elite, não apenas devido à resposta à exigência e intensidade dos treinos, mas  pelo que também acontece depois destes. Uma vez disperso o grupo, cada qual vai buscar as criancinhas, emboscar o companheiro para que seja ele a tomar conta dos rebentos, entre uma ida rápida ao supermercado e o acender do fogão para o jantar. Em suma, com os membros ainda moídos pelo exercício e ei-las a iniciar uma nova luta, desta vez contra o tempo. 

Após o jantar e o contar da história à beira do berço, ainda se podem enviar e-mails de trabalho, combinar via chat a reunião do dia seguinte, tendo em mente que nesse mesmo dia haverá reunião com a Directora de turma, ou festa na escolinha, ou a vacina, ou então algo inesperado, como uma virose na creche. Nesse amanhã, a despeito da lista de tarefas de cada formiga, o grupo voltará a formar-se. Em carreiro, entrarão na sala de treinos com a mente focada, quais soldados a quem a noite e o dia se confundem no estrépito da música que dá o tom frenético à batalha.




segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Amor adormecido

Com o Barroco, as pinturas animaram-se  de formas em movimento e torções inovadoras, exagerando-se igualmente os contrastes entre luz e sombra.  Os corpos humanos também ganharam uma outra dimensão, bastante mais realista e terrena.


Caravaggio: Amore dormiente (71x105)
Galleria Palatina, Palácio Pitti (Florença)
Se aquelas eram as nova regras aplicadas à estética, o pintor Caravaggio (1573-1610) extravasava-as, ao pintar prostitutas, bêbados e gente comum, mesmo nas  cenas bíblicas encomendadas pelo Vaticano. Miguelangelo Mersi, di Caravaggio, era uma formiga bastante fora do carreiro de pintores que (ainda) resistiam aos tempos e idealizavam as figuras humanas nas suas criações, proporcionando-as mediante os cânones clássicos.

Em certa noite (ou dia) de vagueio pelas ruas (de Roma, presume-se), pasta de esboços na mão, Caravaggio deparou com uma criança adormecida numa viela. Visão normal - abandonavam-se crianças, eventualmente recém-nascidos, como hoje em dia se descartam animais de estimação à beira da estrada. À época, uma formiga a mais neste mundo era um incómodo para qualquer formigueiro miserável e destes havia-os aos milhares. Neste caso, tratava-se de um menino de dois, três anos de idade. Formiguinha descartada do carreiro do afecto, criança que Caravaggio captou e modelou com o seu traço, banhando-a de uma luz reveladora do rosto visivelmente plebeu, aliado à barriga dilatada pela fome. Pormenores que qualquer renascentista descartaria na sua representação. Muito menos na representação do filho de Vénus: Amor, vulgo Cupido.

Como se lembrou ele, o pintor, de transformar aquele ser enjeitado no filho deusa da Beleza da mitologia greco-romana? O certo é que o dotou de asas e dos atributos que revelam a sua missão junto dos homens e mulheres: o arco e as flechas, as quais se adivinham embebidas do soro da paixão. Podemos entrever as suas formas bem seguras na pequena mão, apesar do abandono ao sono. Como se Cupido, após horas e horas de flechadas em corações, agora devotos ao amor ilimitado, escolhesse um recanto de uma cidade italiana para se recolher e repor forças.

Existe um encantamento nisto tudo. Ao mesmo tempo que se revela a natureza cruel da humanidade, sublimam-se as consequências dessa mesma crueldade impondo à vítima a personagem do Deus do Amor. Ele próprio uma criança destinada ao abandono - Zeus, o pai de todos, sabendo de antemão os problemas que um filho de Marte e Vénus poderiam causar, não quis acolhê-lo no Olimpo. Mas a deusa cuidou do filho às escondidas e Amor conseguiu crescer e manter-se junto da família de imortais. 

Queridas formigas, o encanto desta pintura reside, para mim, na união perfeita do mitológico Cupido com a realidade do menino abandonado. Amor adormecido e sozinho, por lhe ser negado deixar-se amar pelas leis sagradas do Olimpo; também a criança abandonada na noite romana porque as leis terrenas assim o permitiam. Contemplamo-a através dos olhos de Carvaggio durante os minutos que durou a realização do esboço. Vemos o quadro e quase desejamos retirá-la da moldura, permitindo-lhe uma vida plena de afecto, de carícias e risos. Mas é tarde de mais. Caravaggio, esse, fez o que podia. Pintou aquele puttus para a posteridade e, não contente com isso, ofertou-lhe um lugar perene no mundo dos deuses, num Olimpo com torrentes de ambrósia capaz de alimentar qualquer mortal pela eternidade.

Sobre Carvaggio:





sábado, 10 de outubro de 2015

A fruteira errante e outros fenómenos

A vida não é uma pergunta a ser respondida. É um mistério a ser vivido. Buda
Por onde começar? Talvez pela casa de dois sobrados, no seu pouso antigo na encosta da montanha. Ou talvez comece pelo primeiro fenómeno: a prima que hipnotizava galinhas. Ou pelo segundo, a criada da casa, Maria. Uma Xerazade descalça e analfabeta, porém exímia inventadora de histórias, aventuras em países sem nome, pois do mundo ela apenas conhecia aquela casa em Santo António e o namorado magala. E como explicar o fenómeno da fruteira? É precisamente este, o terceiro fenómeno da casa, de que hoje se me ocupa a mente. Numa primeira conclusão, a mesma entidade sobrenatural que colocou um cérebro brilhante no corpo de uma criada de servir, resolveu dotar um objecto inanimado de acção própria. A fruteira, durante a noite, desaparecia da mesa de jantar. 


Conta o meu pai:  pela manhã perguntavam-se: "Onde está hoje a fruteira?", ou então, "Já viram a fruteira?". Alguém a descobria e, conformado, repunha-a ao centro da mesa. Ha! A mesa, não se esqueçam da mesa, conta agora o meu avô. Estávamos todos sentados a comer e sentíamos um cão a esgueirar-se por entre as pernas. Ninguém se incomodava em espreitar. Era facto adquirido - ali não havia cão algum. Apenas ar com movimentos de cão.

Pois, a fruteira. À noite no centro da mesa e de manhã em lugar incerto. A errância da coisa e a busca diária pelo seu paradeiro já fazia parte da rotina da casa. Erradicada a ideia de um brincalhão se dar à maçada de, noites, não, anos a fio, mudar a fruteira de lugar, afastou-se a hipótese de ali haver mão de gente. Era um fenómeno. Mais precisamente, uma embirração. A embirração de um fantasma. 

Conta o meu pai: quando se iam deitar, pequenos e grandes suspendiam a respiração no escuro: o que fará ele, esta noite? De súbito, ouvia-se bater com força à porta de um quarto, o som do punho de um homem contra a madeira, pum!pum!pum! Certas noites, conta o meu pai, ouviam-se passos no corredor e depois os estampidos de objectos a rebolar escada abaixo. Batatas, sapatos, tigelas? Bem se podia ir espreitar, tentar saber, como, o quê, mas a escada permanecia muda no escuro, severa na sua presença antiga.

Pois, a fruteira. Tratava-se de um objecto horroroso, mas do qual ninguém se livrava por ser prenda de casamento. Somente o espírito (um esteta) não entendia porque se aceitava tamanha feiura. O mesmo espírito que estremecia portas, fazia rebolar coisas escada abaixo e, horror dos horrores, puxava pelos pés da prima hipnotizadora com ela a berrar, deitadinha, "Estão a puxar-me pelos pés! Estão a puxar-me pelos pés!". As noites em Santo António podiam ser muito agitadas e procurar uma fruteira, ainda por cima feia, era coisa de somenos perante os fenómenos atrás descritos. O fantasma, acompanhado pelo espírito do seu próprio cão, vivia junto de uma família há muito resignada com a sua presença e, claro, com as respectivas andanças da fruteira. Nunca alguém pediu esconjuro e, muito menos, um padre exorcista. Se afugentássemos tudo o que não compreendemos, pouco restava deste mundo de deus, não é verdade, Maria?

Era assim, conta o meu pai. Era assim, conta o meu avô. Era assim, conta a prima, a mesma que empoleirava galinhas em fila sobre a mesa da cozinha, pousava o seu olhar em cada uma e era vê-las transformadas em estátuas de jardim. Coabitar com o impossível era vulgar como ir à missa. Nem sequer à Maria, católica fervorosa, lhe incomodava a assombração. Se as almas do outro mundo perdiam condição diante das suas histórias, um fantasma, então, tinha tanto de sobrenatural quanto um gato vadio. Murmurava vade retro, descalçava os sapatos e ia em demanda da fruteira, na esperança de encontrá-la em cacos.

domingo, 27 de setembro de 2015

O Mal de Vivre, esse bicho!

Charles Baudelaire (1821-1867)
"«De onde vem, perguntava, a tristeza que mina // O meu ser, como o mar invadindo os rochedos?» // Quando no coração se fez uma vindima // viver torna-se um mal. Não é nenhum segredo." 
C. Baudelaire, in: "As Flores do Mal"

 Afligimo-nos com a falta de esperança, com a redução das perspectivas, com a rotina que nos asfixia...com o amor que tarda em aparecer. Afligimo-nos e bradamos ao mundo e a nós próprios: "Quero mudar!".

 


Expressa a vontade, resta-nos obter livre acesso ao verbo: mudar. Apressamo-nos a entrar num corredor ladeado de portas fechadas e, numa voragem cega, abrimo-las uma à uma. A este ritmo, desenrolam-se as paisagens : desde paraísos com bichinhos fofos e Apolos musculados, aos infernos dantescos como aquele dos corpos humanos paralisados no gelo, as cabeças à superfície em gritos que ninguém ouve. Fartos do corredor  portas, damos por finda a nossa demanda - caímos em nós ao perceber que nenhuma daquelas paisagens nos remete para um lugar especialmente nosso, neste mundo superlotado de vontades. Abertas as portas, o que vemos são quadros que parecem ter sido expostos por um louco. Paisagens de um imaginário colectivo e complexo, ilusões de uma realidade a que todas as formigas almejam. A realidade ideal. A Utopia Individual.

Sofremos com a discórdia entre querer e poder, muito embora ambos os verbos se interliguem naquele provérbio gravado para agradar aos parvos. Não, querer não é, necessariamente, poder. Querer é apenas isso: ter vontade de. Neste caso, de ser outra coisa, outro corpo, outra mente, um novíssimo ente, pois de nós próprios estamos fartos. Sofremos do Mal de Vivre, como lhe chamou o poeta Charles Baudelaire  a essa estirpe da melancolia: o cansaço de sermos nós e sempre nós.

Solução #1: inscrevemo-nos no ginásio. Três, quatro, cinco vezes por semana, submetemos o corpo aos mais variados (e brutais) exercícios, à espera que os níveis da vontade diminuiam a cada flexão, alongamento, corrida suada, sem qualquer meta à vista, numa passadeira mecânica. Eis que chega a noite, o corpo exausto clama por paz. Mas aquela voz nunca se cansa: tens que mudar formiga, podes mudar, formiga, és dona da tua vida, formiga, tens o controlo do teu destino, formiga. Tens que, tens que, tens que...o super-juíz no interior da nossa mente vem trair todo o esforço do dia, inibindo-nos de dormir. Enfim, Encantamento errado.

Solução #2: marcar consulta no psicanalista. Em duas ou três sessões ficamos elucidados: aquele trambolhão no parque infantil traumatizou-nos para sempre e por isso temos medo de mudar de baloiço. E agora, doutor? Agora, continuamos!, responde. Temos de ir mais fundo, dissecar os episódios da sua infância, verá como tudo fará sentido. Após meses em sessões no divã, o Mal de Vivre, esse bicho, vai ganhando volume à nossa revelia, nossa e do médico. Pois não nos focámos em domá-lo. Apenas nos focámos em compreendê-lo. E certos bichos não se dão, de todo, à observação. Troçam das nossas introspecções.

Solução #3: fazer de conta que tal bicho, simplesmente, não existe. A pior decisão possível. Para se fazer recordar 24 horas sobre 24, o Mal de Vivre abraça-nos pelas costas, qual súcubo medieval. Com esse peso extra, ninguém consegue mudar. Ninguém. Pois esta besta é um anti-verbo. O oposto da acção. Submete-nos à gravidade terrestre até à rendição total. Deixamos de andar, resta-nos gatinhar por este mundo de provas e expiações. 

Chega o momento fatal: a resignação. Não vou mudar, porque não posso mudar. Porque não me deixam mudar. Com o comando da TV na mão, ordenamos à box que grave todas as temporadas das nossas séries favoritas. E ali nos abandonamos, em contemplação dos sonhos de grandeza dos outros. Com o Mal de Vivre confortavelmente enroscado no nosso pescoço.

Vem um dia e as estrelas de repente se alinham, os planetas conversam harmoniosamente no espaço, Júpiter faz uma linda coreografia com Mercúrio e como o que está em cima é igual o que está em baixo, em nossa palhota toca o telefone. A notícia é boa - mais do que boa, é o prenúncio de um virar definitivo desta página amarga. Sei do que estou a falar, amigas formigas. Também eu, a vossa Encantadora, já se fartou de abrir portas enigmáticas, deixar o coiro no ginásio e ganhar ódio à infância. E ouviu o telefone tocar com a notícia de que a sua Vontade de Mudar ganhou o grande prémio: a ligação que faltava ao verbo Agir. Sem esforço, privação ou troca por sofrimento.

Graças à boa notícia, mui subtilmente, o Mal de Vivre descola-se das nossas costas para deslizar em direcção a um buraco qualquer.
Tanto barulho por nada, diria Shakespeare.
Tanto barulho, amigas formigas, quando as grandes mudanças ocorrem nos Encantamentos do palco estelar, entre coreografias e diálogos antigos e secretos, digo-vos eu.
Assim se aprende a humildade.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A cama de Procusto

Ou cabe ou não cabe



Procusto, deus menor da mitologia grega, possuía uma cama, não para dormir, mas para dela se servir na tortura dos mortais que raptava. Uma vez deitados e amarrados, seguia-se o suplicio: caso o coitado excedesse as medidas do leito, Procusto não fazia por menos: cortava o que sobrava, desde pés, pernas, mãos, braços, até a própria cabeça da vítima. Sucedendo o inverso, este deus dos sádicos e persecutor das camas standartizadas, esticava-lhe o corpo até o conjunto de ossos e carne preencher o espaço. Adiante-se que  Igreja Católica, adversa dos paganismos greco-romanos, aproveitou-se sem pruridos do método do deus Procusto nos tempos negros da Santa Inquisição. Ou corta ou estica. Ou cabe ou não cabe.

Na esteira do mito, galgando-se uns quantos séculos de história da tortura, certa companhia aérea britânica de baixo custo (lowcost) possui o seu próprio método inquisitório no que concerne à nossa bagagem de mão. A cama foi substituída por uma grade tridimensional. Um dos assessores deste Procusto moderno percorre a fila de embarque em busca de vítimas, submetendo-as a um escrutínio tão rígido que, daqui a séculos, fará decerto parte da mitologia aeronáutica. À semelhança da cama do antigo deus da intolerância, a nossa bagagem de mão ou cabe ou não cabe, na tal estrutura de ferro, standarizada. Caso exceda, vá lá, um centímetro, o sujeito olha-nos como se transportássemos venenos. Vai daí, ordena que paguemos 40 euros pelo inchaço, o preço de colocar a bagagem no porão. Tentamos convencê-lo de que um centímetro é apenas isso. Um centímetro. "Tem que resolver o problema!", ruge baixinho. 



Aqui se inicia o martírio: abre-se mala, retira-se um objecto, fecha-se mala, enfia-se no paralelipípedo da grade, mas não, o centímetro continua lá, o volume não encaixa na estrutura por nada deste mundo. A esta altura, a vítima deste novo deus do ar já é alvo de atenção de todas as formigas na fila de embarque, ao mesmo tempo que uma gota de suor lhe escorre espinha abaixo, consequência do esforço de amassar ao máximo o conteúdo da mala. A voz de Procusto parece rugir pelos altifalantes do aeroporto: "Corta ou estica, estica ou corta! Cut or strech, strech or cut!".

Já pensamos em rendição quando uma vozinha no carreiro de formigas sugere: dê-me algumas das suas coisas, levo-as na minha mala de mão, já que não trago mais nada. Depois lá fora devolvo-lhas! É irregular, já se sabe, porém irrecusável, para mais tratando-se de uma formiga de parcos recursos. O jovem assessor do deus da intolerância, tendo assistido à operação do troca-troca, aproveita-se da lentidão do embarque para caminhar ao lado da formiga (enervada e exausta) de modo a culpá-la de  provocar comportamentos terroristas.
Uma vez sentada no avião, os nervos em frangalhos, ela pede ao comissário de bordo algo que a acalme, como um chocolate quente. Pago, é claro. 

O Encantamento que proponho à Companhia aérea em causa é o seguinte: antes coloquem as bagagens nos lugares dos passageiros, tomando estes o lugar da carga e, como tal, enfiados no porão. Excepção feita a quem viaje em Executiva, formigas abonadas, com meios de pagar o despacho da bagagem que bem lhes entender. Se tal resolveria o problema do terrorismo aéreo? Duvido.

Daqui a mil anos, a lenda iniciar-se-á com as seguintes palavras: "No tempo em que o Céu era propriedade dos ricos...".

domingo, 23 de agosto de 2015

A minha vida com Joe


Cesare "Joe" Colombo (1931-1971)

Posso afirmá-lo: eu e Joe Colombo sempre vivemos sob o mesmo tecto. 


O Móvel de Arrumação Portátil (Portable Storage System), da autoria do designer italiano Joe Colombo, não só nos acompanhava ao longo das constantes mudanças de casa, como se adaptava  a quaisquer imposições espaciais. Lembro-me do "Joe-Garrafeira", do "Joe-Atelier", do "Joe-aparador", entre outras variações do mesmo móvel branco, de curvas elegantes e puras.

Sempre soube tratar-se de um objecto de design (nunca de uma réplica industrial barata, à venda num retalhista e pronto-a-montar), mas só lhe reconheci o lugar no pódio (entre outros objectos similares), quando me deparei com o seu irmão mais velho no Museu do Design e da Moda (MUDE), em Lisboa e, anos  mais tarde, quando conheci uma sua prima no MoMA, em Nova Iorque, a famosa Minikitchen.

Portable storage system, 1969
Joe Colombo foi um designer genial que marcou a década de 1960 ao concentrar múltiplos aspectos da vida doméstica em objectos inovadores e portadores de uma estética futurista. Aliados a uma fácil (e elegante) deslocação, assente no sistema universal das quatro rodas. Se a finalidade do design industrial é aliar a forma à função, então Joe Colombo foi o rei do mobiliário funcional. Naquele tempo, em que tantas formigas se acostumavam a viver em propriedades verticais e, consequentemente, em espaços urbanos mais reduzidos, uma cozinha portátil e de uma qualidade estética à prova de bala, mais que um móvel, era um objecto de desejo.

Minikitchen, 1963
Desconheço o custo real e actualizado dos móveis portáteis de Joe Colombo, mas o nosso apareceu lá em casa, julgo eu, quando eu começava a gatinhar. É um animal vistoso que se exibe às visitas, presença forte com direito a respirar no seu próprio espaço. Um bicho que fazemos desfilar de uma ponta à outra da sala. Repito: um objecto de desejo.

Como não se abandonam, nem animais, nem objectos de estimação, trouxe-o comigo para o meu novo esconderijo. Respeito-lhe os espaços e gavetas, tentando não sobrecarregá-lo de mais com as minhas ervas, flores e calhamaços de Encantamentos. sua presença sofisticada reacende-me o desejo por um mundo melhor, menos arbitrário no consumo de coisas sem valor. 
Eis, o meu Joe Colombo:



Saiba mais em: http://design.designmuseum.org/design/joe-colombo







quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Eu, Sócrates, Freud e Bridget Jones


«Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses» - Sócrates (470-399 a.C.)

"Livros de Auto-ajuda". Quem mais os lê, diz-se, são as meninas e senhoras formigas . Quanto aos nossos meninos e homens, com a educação - ainda reminiscente - de que «os duros não dançam», a tal propósito temos o sarcástico "não li e não gostei", o arrogante "eu sei tudo o que aí está, não preciso de ler" e o pior deles, o homúnculo, o qual não lê "livros para gajas". 


Ora, caras amigas formigas, mau-grado escusar-me de dormir com tais super-machos, decido agora ser advogada do diabo e relembrar o filme "O Diário de Bridget Jones". Neste, a personagem teme um destino de solteira até um dia acabar, segundo ela própria, «encontrada morta, meio-comida por Lobos-de-Alsácia». 
Numa das cenas finais, Bridget Jones (Reneé Zellweger) , reúne todos os seus livros de Auto-ajuda e, em pijama, vai enfiá-los no contentor do lixo. Golpe de teatro: do fundo da noite, regressa o namorado Mark Darcy (Colin Firth) e ambos fazem as pazes. Acção-consequência? Será que as coisas boas acontecem, não porque dominamos a arte de moldar a realidade na sua forma mais feliz, mas pela simples magia da imprevisibilidade? A ser verdade, ainda menos dominamos os acontecimentos lendo um punhado de opúsculos que nos ensinam, passo a passo, capítulo a capítulo, como devemos proceder até a câmara fazer zoom no par de lábios que se beijam. The End.

Acredito no Amor. Aliás, é a única coisa em que acredito. Contudo, como já o escrevi, hoje serei advogada do diabo. À semelhança de Bridget Jones, gastei bom dinheiro nesses livros-felicidade-pronta-a-servir. Em quantidade suficiente para me confundir a cabeça, o coração e o estômago, ao ponto de agora os querer ver reciclados. Só não imito a cena do contentor porque certa formiga amiga, sabendo da minha intenção drástica de me desfazer de todos eles, implorou que lhos oferecesse. Uiiiii. Já estou a imaginar as vossas expressões, formiguinhas-leitoras: afinal, de que lado é que ela está? Do dos super-machos? Apresso-me a responder: do lado de quem se conforma com o facto, cientificamente comprovado, de que mais de 90% das nossas decisões são tomadas, não pela razão, não pela vontade, mas pelo nosso inconsciente. 


Ora, qualquer livro, por melhor que seja, por mais vendas que faça, por maior prestígio do seu autor, NÃO consegue fazer K.O. ao nosso inconsciente. É uma luta desigual. Trata-se do mesmo inconsciente que nos obriga a repetir padrões. O mesmo que, segundo Freud, empurra os homens para parceiras parecidas com as mãe e às mulheres para homens parecidos com o pai.  Édipo e Electra, grandes tragédias gregas no palco do nosso inconsciente, capazes de agregar-nos em carreiros de fêmeas e machos, de onde apenas se desviam aquelas formigas que buscam o auto-conhecimento. "Conhece-te a ti mesmo", teria proclamado o filósofo Sócrates. Formiga, sai fora carreiro, sussurro-te eu.

Os meus livros de Auto-ajuda, por mim destinados à mastigação do carro do lixo, terão como destino outro formigueiro. Afinal e em prol da sinceridade, acho que atirar livros em contentores deveria ser considerado crime público. Mas digo-lhes adeus. A esta altura da vida horroriza-me ser manipulada por tal bibliografia. Cansei-me de tentar controlar o incontrolável, entregando-me, com alegria, à beleza da imprevisibilidade. O que não me impede de ajudar o inconsciente a trabalhar a meu favor e não contra o meu direito à felicidade. No caso da felicidade amorosa, aconselho estes 3 Encantamentos ancestrais:

  1. Ouvir a intuição: vive com a mãe, um gato paralítico e sete aranhas amestradas. Não sou psiquiatra! 
  2. Usar da racionalidade inata: casado e amante à hora de almoço. Nunca!
  3. Apreender com os 5 sentidos a verdade dos factos: falas aos berros num restaurante? Come tu a minha sobremesa!

Ou todos estes Encantamentos juntos e mais alguns que se vão aprendendo. Soa a trabalho de uma vida. Pois é. Se calhar, várias.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O novo planeta chamava-se Escola Primária


Na manhã daquele primeiro dia, fui acometida por um ataque de asma, seguido de vómitos e ranho, num choro tal que fez meu pai correr a enfiar-se no carro, mantendo-se ali bem seguro até passar a tempestade. Todos julgavam que ia ser fácil colocar-me a pasta vermelha nas costas. Não foi.

Pois, ali vinha a primeira classe (agora designada pelos burocratas do ME como 1.º ano do 1.º Ciclo). Grande foi o terror de quem estava prestes a pisar um novo planeta, apenas munida de um bibe e uma cesta de almoço. Perante a dimensão do caos causado por uma miúda de seis anos (bomba de asma, lenços, correrias à casa-de-banho) a minha mãe deitou mão a um último recurso. Um livro. Mais precisamente, o "Livro de leitura da 1ª Classe".  Colocou-me o livrinho cor-de-laranja nos joelhos: "Olha, os desenhos do teu livro de leitura são da avó Maria". Referia-se à pintora e desenhadora Maria Keil.

Tinha-a conhecido naquele mesmo Verão, na famosa Quinta em Sacavém, pontinho de Portugal Continental onde aconteceu o momento que iria transformar-me numa contadora de histórias: Maria Keil oferecera-me um teatrinho de fantoches de dedo, o "Teatro do Minimim", com personagens de sua autoria. Era (e ainda é!) o meu primeiro teatro a sério.

A evocação daquele episódio suavizou-me as emoções.

Apesar de adivinhar a impaciência do marido sentado ao volante, a minha mãe parou o tempo e deu-me a ver as ilustrações do livro de capa laranja, na qual meninos em fila entravam no novo planeta da escola primária. Ela folheou páginas e páginas de desenhos límpidos, de linha clara, simples na evocação de uma vida simples: havia uma senhora de avental a fazer gelados («Letra Gê: o gelado leva leite, gemas e açúcar»), meninos de braços levantados em direcção ao "A, E, I, O, U", como quem tenat alcançar pássaros em vôo.

A letra "I", associado ao desenho de uma igreja de bonecas. Lembrei-me, a avó Ester vai à igreja - lugar secreto para mim, filha de ateus. Mas aquele "I", o "I" de igreja, tão bem desenhado, como se fora manuscrito, tão acessível ao olhos, mostrou-me como alguns segredos, afinal, podiam ser revelados: bastava aprender a ler.


A leitura seria, então, a entrada para todos os lugares secretos dos "grandes". Mesmo os segredos que a minha avó ditava baixinho, na obscuridade de uma nave. O tempo voltou a andar. Engoli lágrimas, sequei o ranho, respirei fundo. De mão dada com a minha mãe, atravessei com passos valentes o nosso jardim, rumo à Lua.

"O Livro da Primeira Classe", da autoria de Maria Luísa Torre Pires, Francisca Laura Batista e Glória N. Gusmão Morais também conta com ilustrações do artista plástico Luís Filipe de Abreu a par das de Maria Keil. A 1.ª edição data de 1967, com a chancela da Editora Educação Nacional de Adolfo Machado. Nunca o vi reeditado. É uma pérola perdida.

Quanto ao "Teatro do Minimim", a partir dos meus sete anos entrou comigo em digressão. Era o ponto alto das festas de aniversário.  Havia somente uma condição para haver função nesse dia: ninguém, além de desta vossa Encantadora, podia tocar no teatro e respectivas figuras. Tal inflexibilidade deu bons frutos. Ei-lo, intacto, desde o século passado.
O Teatro do Minim, personagens e estrutura

O Polícia, a Rainha e o Diabo.

I  LOVE 560


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Intrusos e Abusivos

Intruso: do dicionário, intrometido; aquele que se introduz sem direito


A minha casa é o meu castelo.  Se alguém pernoita no chão de palha da minha sala, até o convido para o pequeno-almoço, pois decerto é amigo. Mas quem se enfia por debaixo da porta, qual barata dissimulada pelo lusco-fusco, é decerto mal-vindo. Mas também acontece escancararmos a nossa casa, sem adivinhar que o nosso chão, uma vez pisado por certa figura, nunca mais será o mesmo. Refiro-me ao Intruso. Aquele ou aquela que só pede permissão para entrar uma vez transposta a soleira da nossa porta.

Antes de sequer pensarmos como tal aconteceu, abre-se-lhe um sorriso sedutor (acompanhado pelo tom invejoso na frase exclamativa "Bem gira, a tua casa!") e eis que nos informa:  olha, vou mudar de apartamento, mas só me dão a chave daqui a  dias... estou um bocadinho à rasca, sem lugar onde por as minhas coisas...Interrompes: alugas um contentor, queres o número da firma? E ele/ela, não, é só por uns dias e como soube por Fulano que tens arrecadação...posso, não posso, guardar umas coisinhas na tua arrecadação? Atarantada pelo pedido imprevisto, qual coelho paralisado pelos faróis de um carro, dizes sim, tudo bem. Temos de ser uns para os outros.

Muitos filmes de terror começam assim, com a cedência de uma vítima inocente ao agressor disfarçado.  Três, seis meses, um ano, a tua arrecadação, permanece cativa dos bens preciosos do teu Intruso, das "coisinhas" que afinal se revelam enormes volumes empilhados até ao tecto. Decides agir. Pegas no telefone e eis que escutas a seguinte mensagem: "O número que ligou não está atribuído". 

Passam-se mais alguns meses, Fulano diz que o viu passar ali, Sicrano jantou com ele acolá, mas a ti, Formiga ingénua, nem uma mensagem, nenhuma explicação, nenhuma desculpa, e quantos meios para o fazer! Por simples delicadeza. Gentileza. Educação. Tu, amiga Formiga, que foste educada para nunca deixar pegadas em casa alheia, vês-te aflita a esfregar a marca das patorras que teimam ferir para sempre o teu soalho sagrado. As pegadas do Intruso. Mais, do Intruso Abusivo, que apenas te vê como um depósito de acesso fácil, o descanso final para uma vida de que ele tanto se quis desfazer, sabem-se lá os motivos.

No meu caso, após três anos  esgotou-se-me a paciência. Dirigi-me à arrecadação e coloquei mãos à obra. Despejei os maus odores daquele Intruso na vala do lixo comum, ao mesmo tempo que me surpreendia com os conteúdos dos sacos, sacolas e caixas:   desde mercearias estragadas, a caixas de medicamentos vazias, escovas de dentes usadas e t-shirts esburacadas, jornais semi-desfeitos...no fim de contas, "bens" que se revelaram lixo, puro lixo. E como lixo, no lixo os depositei. Decidida e sem remorsos. Com a sensação maravilhosa de me ter livrado de alguém que, nunca dando de si, me mantinha refém da sua presença.

Caras formigas: uma das suas características mais comuns dos Intrusos e Abusivos é aparecem na vossa vida sem qualquer aviso prévio. Eles não pedem licença, eles não pedem desculpa, eles somente se aproveitam do outro para obterem privilégios. Ao primeiro sinal de manipulação psicológica (Bem gira, a tua casa, etc..), açoitem-lhes o pêlo sem misericórdia, como se faz às baratas e a semelhantes enganos de deus. Eis o Encantamento de hoje. Boa noite!


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tempo sem fronteiras

Entrava Agosto e meu avô declarava: "Primeiro dia de Agosto, primeiro dia de Inverno". Acreditem ou não, nesse mesmo dia acabava por chover. Isto é real.



Passado, Presente e Futuro.  Dizemos com naturalidade "O que passou, passou", "O futuro o dirá" e, claro, o famoso "Carpe Diem" do filme "O Clube dos Poetas Mortos". Enunciações que o vulgo repete a torto e a direito. Contudo, para certos cientistas, os da Teoria das Cordas, tudo acontece aqui e agora, em Universos Paralelos. Ilustre-se: enquanto escrevo este texto, um T-Rex atravessa o plano da janela à minha frente. Ops!

O Tempo, medido em horas, minutos e segundos, regra absolutamente acreditada a partir do século XVII com a invenção do relógio mecânico, é o tempo que se adapta à nossa necessidade de padrões confortáveis, num quotidiano falível e caótico. Balizas quantificáveis para o que se pode ou se deixa de fazer. Padrões de sono/vigília, padrões de lazer e trabalho, padrões de invocação e silêncio... milhões de rituais para tudo e mais alguma coisa. Acordar, escolher a roupa do dia, entrar no comboio, meter a chave à porta, adormecer...o início, o meio e o fim, repetidos qual melodia minimalista ao longo de uma vida. 
Queremos, desejamos, previsibilidade (para depois nos queixarmos dela!).

Regressemos aos teóricos dos multiversos. Coíbo-me de entrar em pormenores (acompanhados pelos incidentes grosseiros de quem coloca pé em seara alheia), mas tal ouvi dizer pelos ditos físicos: o que existe, apenas existe porque nós o observamos. Como no jogo infantil, em que a mãe cobre a cabeça com o lençol e o bebé diz, "Mamã não tá!", cremos somente naquilo que se revela pela nossa vontade. Vemos o que queremos ver.  Mas o T-Rex diante da minha janela coexiste com a batalha de Waterloo no espaço da sala e, imagine-se, com um concerto dos The Doors no interior do meu chuveiro! Tudo, tudo, tudo, aqui e agora. Que visão extenuante! 

As primeiras estrelas do primeiro Universo brilham ao alcance de um telescópio - observar as estrelas é observar o passado, todos o sabemos. Contudo, permanecemos crianças num quarto de brinquedos a brincar ao "Tá? Não Tá!", fiéis aos relógios que tiqueteiam a marcha da nossa vida, sobre uma hipotética linha de tempo, traçada por certa deidade geómetra!

Na esquina de um mundo alternativo qualquer, lugar onde o tempo faz a curva, rapariga choca com rapaz.  Ela sou eu, bastante mais jovem, tal como tu, na casa dos vinte e ainda com os pés timidamente assentes no tabuado do teatro. Aqui e agora. Eis-nos. Mas não nos vemos. Tu e eu, a batalha de Waterloo, o T-Rex na janela e os The Doors no chuveiro, a realidade invisível. Invisível e cruel. Nada somos um para o outro até arrancarmos o lençol entre os nossos dois mundos. Até nos dedicarmos a observar aquilo que, à partida, não deve, não pode, ser real.

Mas um dia vou conseguir acertar no Encantamento e, numa noite qualquer, olharei para ti e logo ali me verás. Caso prolonguemos o momento da observação seremos, à vez, um olhar sobre uma estrela. Não há tempo. Apenas Espaço. Assim o dizem os tais cientistas.

Filme a ver:
O que Raio Sabemos Nós?