domingo, 10 de abril de 2016

A arte de bem jardinar

Uma varanda, jardim suspenso sobre a estrada. Adquiridas as flores em vasos provisórios, falta distribuí-las pelos canteiros. Também já temos a esta terra sem perfume a terra -  mesmo assim, terra que  entranha nas unhas, mas não suja por ser terra. O fertilizante é artificial, mas funciona, diz quem o vendeu a bom dinheiro. Preparamos o dia de jardinagem: atapetamos as lajes com jornais agora sem notícias; calçamos as luvas, abrimos a saca de terra... afinal cheira mesmo a terra! O ar preenchido pelo canto dos pássaros conforta-nos pela chegada da Primavera, genuína e democrática. Chega a todos, mesmo a estes jardineiros, donos do minúsculo jardim urbano suspenso sobre a rua demasiado movimentada, demasiado poluída...que importa? É o nosso jardim.

Ah, pois, a saca de terra, o ancinho e a pá que parecem de brincar, mas servem. Estas flores vieram de mãos de jardineiros autênticos, os quais as preservaram, estimadas nas cores e cuidadas no viço nos viveiros de origem. Flores e plantas que acarinhamos, que agora transplantamos com cuidados de cirurgião para os canteiros de plástico. Passam as horas, nem damos por elas. As flores tomam os seus devidos lugares no jardim suspenso sobre a avenida. Regam-se, entre palavras murmuradas, pois às plantas falamos com amor e assim florescem saudáveis. Em cada manhã, descerradas as cortinas, ei-las, céleres no desabrochar dos botões. Rosas, sempre-noivas, maravilhas, amores-perfeitos, ou então as de nomes mais complexos, como calachoés, falanopsis, oleandros, cinerárias...orgulhamo-nos de todas, apresentamos-as aos amigos, como se fossem família ou aquelas coisas de estimação que nos recordam a juventude.

Certa noite há ventania que nos desperta. Voltamos a dormir - a Primavera protege todos os seus filhos e não vai ser uma aragem que os irá ferir ou matar. Descerradas as cortinas na manhã seguinte, temos a impressão de ter havido um raid aéreo sobre a nossa plantação. Terra vertida, entornada dos canteiros, flores despidas, quebradas nos talos pelas unhas do vento. Flores geladas pelo súbito fragor de uma invernia inesperada. Com o coração pesado, limpamos o jardim, cortamos aqui e ali, até cortarmos quase tudo, um botão ou outro resistiu. Contudo, meia-dúzia de sobreviventes não chegam, não enchem, não inspiram, não se apresentam a ninguém. Aguardam apenas um novo tempo de morrer.

Passado o estupor paralisante do momento, contamos o dinheiro, voltamos aos viveiros e às conversas de como se faz com os antúrios, as rosinhas e os brincos-de-princesa. Regressamos à varanda devastada e à jardinagem forçada. Atapetamos o solo com jornais ainda por ler. Há que permanecer nos trabalhos do jardim. Há que resistir às surpresas. Aos súbitos Invernos da alma. Há que persistir no amor. Há que, eternamente, florescer.

sábado, 19 de março de 2016

Quando o telefone toca...

...é preciso atender? Não. Primeiro, atente-se na novidade daquele número no visor. Sendo desconhecido, coloca-se o bloco em modo silencioso, deixando-o estrebuchar por dentro as vezes que forem necessárias. Porque, aviso de antemão, aquele número misterioso irá aparecer todos os dias, a todas as horas, mesmo nas mais impróprias, como na pausa do almoço ou no tempo de retiro após o jantar. Mas vem um dia e perguntamo-nos - e se for o príncipe encantado? Ou alguém de direito a dar em doido para conseguir entregar-nos alguns milhões...bom, imaginados todos os cenários, caímos na tentação e...Alô? 

Voz de secretária: 
- Bom dia, estou a falar com a senhora professora doutora formiga fulana de tal?
- Sim é a própria...
- Senhora professora doutora formiga fulana de tal, bom dia, como vai?
- Bem, obrigada...
- Óptimo. Senhora professora doutora formiga fulana de tal, o meu nome é sicrana e estou a ligar-lhe para saber se já conhece...
Segue-se uma ladainha de perguntas e respostas, as últimas dadas em tom seco, porém educado: não, não quero, não estou interessada, eu já sei, sim, conheço, mas não, não estou interessada....
- Muito bem senhora formiga professora doutora fulana de tal, tenha um bom dia.
Antes que o diabo esfregue um olho e nos faça desleixar as prioridades, enfiamos o número na lista de "números filtrados". Tal não significa que nos próximos dias, nas próximas semanas e - sei do que falo - durante mais de um mês, o telefone deixe de mostrar, até o vómito nos sair pelos olhos, os 9 dígitos amaldiçoados. "Tem 21 chamadas não atendidas". Oh, infeliz, formiga, ainda te iludes que entre essas chamadas perdidas encontra-se alguma boa nova?  Milhões a chegar, mais o príncipe, o pacote inteiro de felicidade? Claro que não! São 21 chamadas do mesmo número. Pensas: deixá-los cansarem-se. Mas és tu quem fica exaurida, pois o número intromete-se na tua rotina, surge no visor até cederes, até te dobrares à vontade da menina do Call Centre. Em certo momento de maus fígados (pode acontecer a qualquer um), atendes. Antes de alguém proferir o senhora doutora formiga professora como está, atiras-te à goela do pobre maçador: olhe, coloque aí, escrito num painel de 20 metros: esta senhora doutora formiga não quer comprar nada! 
- Mas, senhora professora doutora formiga fulana de tal, já conhece os nossos produtos?
Aqui, os músculos retesam-se, os olhos engatilham cada qual a sua pistola, os dedos que agarram o bloco falante formam uma garra em tom lívido e finalmente estala o verniz da urbanidade:

UM PAINEL DE VINTE METROS! OUVIU-ME BEM?
Clic.

Esta vossa Encantadora nunca dá o seu número de contacto a entes desconhecidos. O mesmo nunca constou de qualquer lista telefónica. Não é do domínio público, ponto final. Mas "eles" têm-no. Não sabemos como nem quando nem onde, mas obtiveram-no. Para usá-lo. Abusá-lo. E maçar-nos. Algumas empresas pensam, erradamente, estar na vanguarda do telemarketing. Pois, não, não estão. Andam mas é a reboque da velha técnica de vencer-nos pelo cansaço, nascida nos anos 20 do século passado com a Ford a contratar domesticas para vender automóveis pelo telefone. 

A sugestão, em alta voz, do painel de 20 metros, teve de certezinha o impacto desejado. 
Acabou-se.
Perceberam a força deste Encantamento? Sim?  Afinem a garganta e apliquem-no.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Trabalho Sombra - pagar para desumanizar


Começo por um exemplo típico: certa formigas sai do local de emprego / creche / ginásio e dirige-se ao supermercado de automóvel. Pelo caminho, encosta no posto de gasolina. Serviço onde dantes existiam funcionários (mal) pagos para encher o depósito. Como a base actual é cortar nos empregos (mesmo nos de salário mínimo),  é o cliente a substituir a pessoa entretanto dispensada. Podemos até sofrer de artrite, tendinite, cataratas e ter uma criança a berrar de fome agarrada às penas: somos nós a retirar e a por a mangueira no descanso e a deslocar-nos à caixa de pagamento. Por vezes com dois ou três formigas em fato-macaco sentadas em botijas, ocupadas a jogar à bisca. Que querem? O trabalho não é deles. Ou seja, é nosso. Pela mesma lógica, não tendo pago, nem ao funcionário ausente, nem à nossa pessoa,  trabalhamos de graça para a empresa petrolífera. Mais: chegamos a pagar por isso! 

Lembro-me de ser miúda e entregar ao Sr. António da mercearia a lista das compras. Era ele que ia buscar os produtos e que os acomodava no saco (de pano). Agora A senhora de 85 anos tem de saber o que é um código de barras e como posicioná-lo sob o leitor da caixa automática do supermercado. Acontece atrapalhar-se, as formigas na fila iniciam um coro minimalista de resmungos, a velhinha enerva-se...tudo por causa de um pacote de bolachas. As formigas-caixa de nome na lapela voltam costas à cena. O trabalho, mais uma vez, não é delas. É da máquina e dos seus operadores,  novos ou velhos. É Trabalho Sombra, executado  para as grandes empresas e, repito, pelo qual chegamos até a pagar. Os vales de desconto são migalhas de retorno pelo nosso desempenho na selva do capitalismo.


«Presentemente, na nossa sociedade, vivemos um paradoxo curioso: apesar de terem sido criados inúmeros meios tecnológicos para nos facilitarem a vida, tudo parece mais difícil e o ritmo do dia-a-dia não pára de aumentar, contribuindo para o nosso desgaste. Trabalhamos muito mais do que a algum tempo atrás, estamos a desempenhar cada vez mais tarefas com a falsa crença de podermos ganhar tempo. O Trabalho sombra parece imparável, tendo-se infiltrado sub-repticiamente nas nossas vidas, como se fosse uma praga invisível.» Pedro Afonso, médico Psiquiatra.

Os exemplos de Trabalho Sombra estendem-se a praticamente todos os minutos da nossa vida, estejamos nós acordados. Estendem-se ao ponto de nos absorverem tempo. Tempo precioso, dado de bandeja aos empresários, que assim cortam nos custos enquanto escravizam a (já) emagrecida massa laboral, como no caso de seguranças fardados a arrumar carrinhos de compras nos estacionamentos - Trabalho Sombra à descarada!


Somos, das formigas europeias, as que mais horas de trabalho carregam às costas. Sim, eu vi os números e os gráficos, os mesmos que pecam por omissão: nenhum deles tem em conta o dito Trabalho Sombra. Somem às vossas 35 horas semanais outras 3 ou 4 para obterem o tempo real de trabalho, parte dele despendido a montar uma estante segundo instruções escritas em mandarim. Nunca é demais lembrar: tais horas extra pertenciam a alguém, agora desempregado pelo faça-você-mesmo. 

Eis o Maior Encantamento de Todos: demitam-se dos Trabalhos Sombra que vos escravizam, formigas! Existem sempre alternativas, meios para se escusarem de trabalhar para quem abusa do vosso tempo, garantindo assim cofres cheios em modo automático. Descobri uma bomba de gasolina com funcionários prestativos, aos quais dou bolinhos e uma nota de gorjeta pelo Natal. Se pago o saco, peço amavelmente ao senhor da caixa do supermercado que me ajude a enchê-lo, tão amavelmente que até me mostra a foto do rebento recém-nascido. Não se trata de economia paralela (no caso da gorjeta) nem de paleio deitado fora. Trata-se de resgatar a nossa humanidade, em gestos em que todos ficam a ganhar. 

Palavra de Encantadora!

sábado, 30 de janeiro de 2016

O Factor Lassie

O Factor Lassie (ou the Lassie-Factor, em jargão científico)


Aviso: a teoria Factor-Cão assenta no total empirismo, este amplamente certificado pela comunidade científica desde o século XVIII. Os dados que a comprovam baseiam-se no estudo de 10.326 casos de indivíduos do sexo masculino, casados ou em união de facto, com uma margem de erro de 0,0009%. Fonte: Encantanúmeros Lda.




Esta mensagem é para as amigas formigas que, por motivos alheios à sua razão, se apaixonam por quem nunca - mesmo chovendo burros alentejanos - o devem fazer: o homem casado.

Ao contrário da fêmea-formiga, o consorte é, por natureza, acomodado. Se alguma de nós atina com o lar a esboroar-se, logo nos mudamos para um T0, antes que a laje do T6 nos caia em cima. O nosso macho-casado, pelo contrário, descobre o canto mais confortável por entre as ruínas, para ali arrastar o sofá (dos que já revelam uma covinha), onde volta a instalar-se como se nada lhe dissesse respeito. Mais uma vez, fica o aviso: trata-se de uma constatação de base absolutamente empírica, mas com cinco décadas de ininterrupta observação. Através da mesma, porém, assisti a casos em que são eles a sair de casa. A carne é fraca e quanto mais bonita for a carne, mais fraca a deles se torna . Ou seja, mudam-se outro sofá, quiçá acompanhados de uma versão mais jovem da companheira anterior. Mesmo assim, apenas em 0,000001% dos casos, esta se trata de uma mudança definitiva.

Cão de raça Collie
Tal infinitésima taxa de sucesso deve-se ao Factor Lassie. Imagine-se o amado-casado de malas feitas e a porta aberta. De súbito, por esta mesma porta...entra uma enorme e carente Lassie! No derradeiro momento da decisão, ele vacila, vacila ao ponto de tombar de costas pela força afectuosa do canídeo a lamber-lhe as bochechas. A porta fecha-se e, caras e imprudentes formigas, creiam em mim, com o vosso amado-casado fechado do lado de dentro.

Mas porquê ser um cão a prendê-lo? Porque não uma criança recém-nascida? Ora, ao ponto de comodismo apontado no terceiro parágrafo deste texto, a formiga-macho já deverá ter a descendência bem crescida e emancipada. A Síndrome do Ninho Vazio instalou-se, entretanto, juntamente com uma leve, mas insidiosa depressão. A companheira, sempre mais vivaça e atenta (outro facto!), vai ao abrigo de cães mais próximo e eis que o ninho parece voltar a encher-se. O laço recompõe-se, ruínas à parte. A Lassie o, como qualquer cão que se preze, também encontra o seu lugar no sofá (o mesmo da covinha) e as promessas feitas em leito clandestino esvaem-se, lambidela atrás de  lambidela.


O Factor Lassie resume-se mais ou menos a isto: o amor incondicional prometido no altar e arruinado por anos de convivência de duas escovas de dentes, desloca-se para aquela criatura de quatro patas. A ordem amorosa restabelece-se por via desta operação, tão simples, quanto eficaz. Tire-se o chapéu à consorte.

Ainda não descobri qualquer feitiço para anular o Factor Lassie. Humildemente, aponto três Encantamentos:

-Encantamento #1: ao primeiro sinal de Factor Lassie na roupa do vosso amado-casado (pelos, perfume a ração), perguntem-lhe se algum dos filhos entrou no programa Erasmus; sendo a resposta afirmativa, executem o

- Encantamento #2: recuperem o saco de ginástica dele, o mesmo utilizado para trazer o conhecido "kit básico de higiene" e encham-no de brinquedos para animais de estimação. Devolvam-no com um sorriso maroto. Caso ele não entenda a mensagem (!), passem para o infalível

-Encantamento #3: durante o cigarro pós-sexo anunciem candidamente, "Quero adoptar um animal de estimação. Um "collie", tipo "Lassie", estás a ver?  Leva-lo à rua quando estiveres cá...fofinho". Se o amado-casado der uma desculpa para se levantar de rompante e vestir-se, deixem-no sair e rumem logo à agência de viagens mais próxima. O que os olhos não vêem, coração não sente.

Caras amigas formigas: saiam do carreiro das amantes, às quais se prometem Paraísos com as cores melosas das capas da literatura de cordel. Nenhuma de vós está livre do Factor Lassie. Entre outros 456.365 factores, ainda pouco estudados, mas igualmente devastadores.

Palavra de Encantadora!

domingo, 17 de janeiro de 2016

Uma campanha triste

O preço da Liberdade é a vigilância eterna. Thomas Jefferson


Já dizia alguém (o senso-comum?) que não podemos obter resultados diferentes ao fazer algo da mesma maneira. Resultados diferentes e, no mínimo, empolgantes, pedem acções que contrariem o marasmo e a sua amiga mais íntima, a desesperança. Novos resultados pedem, no mínimo, acções criativas. Tudo isto para dizer que tenho acompanhado, 
bastante disfarçada, a Campanha para as novas Eleições Presidenciais. Meti um capote às costa e misturei-me com os estudantes de Coimbra para ouvir uma serenata a uma cândida candidata. Virei o capote do avesso, pus-lhe uma gola e ala para o Alentejo. Introduzi-me à socapa num grupo de cante alentejano e pude observar outro candidato, em tempos padre e com muitíssimo mais sexappeal do que o agora político. Também me desloquei às feiras onde, qual David Attenbourough, espreitei por entre os molhos de couves e alfaces o candidato mais hiperactivo, que hiperactivamente beijava crianças e idosos. E, claro, assisti a mais um comício-pastel-de-bacalhau do candidato com os piores dirigentes de campanha de sempre: além de juntarem as iniciais do nome do homem de forma a compor uma onomatopeia, não contentes com o serviço ainda lhe compuseram um hino com resquícios de canção de intervenção pós-25 de Abril. Podia contar como foi com os restantes candidatos a Presidente da República, mas só de pensar em continuar a discorrer sobre tal assunto, abre-se-me a boca num bocejo de espantar aves e rinocerontes.

Em resumo: existe algo demasiado pequeno, maçudo e, pior, suburbento (de subúrbio), na  antiga super-potência chamada Portugal dos Descobrimentos. As tripulações que rumavam em direcção ao desconhecida, à imagem dos cosmonautas e astronautas actuais, regressavam com menos de metade dos seus homens. O mesmo sangue corre nas  veias do povo que hoje morre, sem glória, nos corredores dos hospitais nacionais. Somos os mesmos, mas os nosso líderes, no passado recente, só nos desiludem pela sua incapacidade de nos unir em prol de um Bem Maior. As naus apodrecem no cais, sem rumo, sem rei, sem ver rosto que dê rosto à Pátria. Morrem cidadãos em prol de nada. E a resposta que damos às famílias enlutadas e empobrecidas é uma Campanha triste, bisonha, igual a todas a que já assistimos. O que promete um futuro Presidente triste, bisonho e semelhante a um actor a quem dão um velho papel nada condizente com o cenário actual. Nenhum milagre, nenhuma magia pode acontecer de Encantamentos mal-feitos e pior, com os mesmos maus resultados do Passado. Sem pós de fada, ninguém voa. Sem um Líder dotado, pelo menos, de bom-senso para demitir dirigentes de Campanha inaptos, adivinha-se um Futuro na paz de um barco-fantasma. 

Os Comícios-comes-e-bebes, os bailaricos, as feiras, as serenatas, os hinos e coros...tudo um enorme e triste déja vu. Caras amigas, conterrâneas formigas, quando veremos cumprir Portugal? 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Brownies democráticos - a receita!

Se não sois capaz de um pouco de feitiçaria, não vale a pena meter-vos em cozinheiro

Colette 


O aspecto não devia iludir: cubos de bolo de chocolate maciço com cobertura e raspas de merengue prometiam bastante. Éramos três, sentados num daqueles Grand Café com empregados de avental comprido: esta vossa Encantadora, um primo (igualmente feiticeiro) das florestas do Norte e...a minha mãe. Abra-se aqui um parênteses: a minha progenitora, formiga fora do carreiro, sempre manteve uma relação difícil com a comida. Recusa-se a cozinhar, ao mesmo tempo que raramente gosta do que come. Quando a ouvi também pedir um brownie suspirei. A primeira garfada iria saber-lhe bem. A segunda menos, a terceira menos ainda. Podia o chef ter ganhado uma estrela Michelin, que sobre as migalhas ela decerto comentaria algo depreciativo. Fechem-se os parêntesis: vieram os brownies, acompanhados pelo chá e a ilusão de afinal sermos três burgueses do século XIX a aproveitar o super-inglês chá das cinco. 

Ingenuamente, cheguei a crer num turnning point, un coup de théatre, e escutar da boca da minha mãe um elogio ao brownie encomendado. O meu primo exultava (acha a comida do Norte insípida), eu devorava o chocolate proibido (até as melhores encantadoras por vezes se submetem a dietas prosaicas - desconheço um feitiço de emagrecer). A senhora minha mãe, esta depenicava.

Abra-se um novo parênteses: embora raramente goste do que ingere, a minha mãe simplesmente adora vir comer à minha cabana. "Ai, a tua comidinha! Gosto tanto da tua comidinha", constituindo o diminutivo afinal o elogio maior, uma chuva de aplausos retumbante após uma sessão de Ópera. Mas o cenário era agora o do Grand Café. E os brownies não tinham saído do meu forno revestido a encantamentos antigos. Costumo levá-los, à casinha materna, na minha cesta de capuchinho vermelho. Pelo caminho vou distribuindo alguns pela vizinhança, incluindo o Lobo Mau, os Três Ursos, os Sete Anões (a Branca de Neve, como é do conhecimento publico, casou-se, divorciou-se e vive nas Laranjeiras) e um ou outro amigo, daqueles que só devolvem os tupperwares passado uma década.

De regresso ao Grand Café e a aguardar o esperado anti-clímax relativamente à qualidade dos brownies. Com a respiração suspensa, eu e o meu primo do Norte escutámos sentença de morte aos bolos chiques: "Estes não são assim tão bons..." (olha a novidade!), mas o humor daquela que me deu à luz, a par da sua rejeição aos tachos, é igualmente lendário. Assim rematou o comentário: "Prefiro os brownies democráticos! São mais fofos." Lá se foi o encantamento ilusório do Grand Café através do riso descontrolado, meu e do meu primo. Brownies democráticos! Brownies democráticos!  Os vulgares. Os das pastelarias de bairro. Os que se distribuem ao povo. Chamar democrático a um brownie equivale a associar o adjectivo "popular" a um Grand Magasin parisiense - aliás, algo que ela já fez.

Os meu brownies, em resultado do atrás descrito, são largamente democratizados. Durante alguns anos mantive a receita centenária guardada no meu Livro de Encantamentos. Hoje, perante a evidência desta ser de Brownies Democráticos, largo mão do segredo em atenção às minhas queridas formigas. Eis a receita:

2 Cx de farinha; 2 Cx de açúcar; 1 Cx de chocolate (ou cacau) em pó; 1 Cx e 1/4 de leite; 2 col. de chá de fermento em pó; 6 col. de sopa de manteiga; 3 ovos.

Misturar o açúcar, a manteiga e uma chávena de farinha até ficar em creme. Misturar à parte a outra chávena de farinha, o chocolate e o fermento. Junta-se esta à outra mistura, peneirando-a aos poucos e alternando com os ovos e o leite. Deitar num tabuleiro muito bem untado e cozer em forno médio por 3/4 hora. Deixa-se arrefecer e corta-se em cubos. Distribuem-se democraticamente pela comunidade.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Síndrome de Hubris, ou a "chave do WC"

Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco. Eurípedes.

O chefe. O chefão. O Chefinho. Todos têm em comum padecerem de igual maleita: da Síndrome de Hubris.  Numa visão simplista da coisa, trata-se de "sentir-se mais do que se é". Nenhuma formiga está livre do ataque da Hubris, ou "descomedimento", na sua raíz grega. Principalmente as alegres formigas alpinistas sociais. 


No melhor dos casos, existe a Hubris que facilmente descamba para o ridículo e, consequentemente, na insubordinação de todo um carreiro perante o chefe. Num um plano mais global, a face negra desta síndrome vive nos seus efeitos secundários: um  líder ministerial a dedicar-se desenfreadamente à fraude, ao tráfico de influências, enfim, ao ataque despudorado ao nosso direito à transparência tornou-se rotina em algumas democracias desvirtuadas.  Apenas porque tal ente "sente que pode". Dão-lhe um gabinete forrado a madeira importada e ei-lo senhor da galáxia. Seja qual for o trono, a sensação hubrica não se mede pela imponência ou forma do mesmo. O sofredor de Hubris, uma vez sentado na sanita, sente que aquilo que evacua cheira a rosas. E o melhor é cheirar e assentir, pois não sabemos a desmesura da sua demência. Desconhecemos a natureza e a força das suas armas. Queremos continuar vivos.

Na verdade, caras formigas, esta Encantadora já aprendeu o seguinte: aquilo que faz um chefe é o facto de ter seguidores. Portanto, antes de desfiarem o vosso rosário de queixas particular, pensem antes que foram vocês, formiguinhas, a eleger o medíocre que agora se sente à vontade para, às dentadinhas de coelho, esmifrar-vos o salário; foram vocês que ofereceram "àquela "gaja" ou "àquele gajo" a "chave da casa-de-banho" e, com tal poder, vêem-no em gáudio perante as vossas aflições. Fomos todos nós, em última análise, a permitirmos a nossa própria submissão, por exemplo, a uma figura claramente despida de carisma e sentido de Estado, ao tomarmos por firme liderança o que não passa de tirania. E os tiranos, como nos ensina a história, foram criados no berço da insegurança.

O chefe. A chefe. Os narcisistas machos e fêmeas que empapelam as nossas acções ao ponto de esmorecermos e paralisarmos de vez. Os pretensos "líderes" cujo aperto de mão, frio, amolecido pela tibieza faz arrepiar cabelos. Mas a Hubris comanda-os e, portanto, nada há a fazer senão imaginarmos que alguém aperta um botão e eles explodem, sonora e vivamente, diante de nós. O Encantamento? O mais imediato será dar-lhes um banho de realidade:  «obrigá-los a comer uma triste sopa ao jantar, 364 dias por ano, tirando-se um dia (vá lá), e lhes dar-lhes a roer uma costeleta. Contudo, os banhos de realidade existem no exterior das muralhas, retirar os doentes da sua ilusão palaciana é uma tarefa que exige o esforço de gente realmente capaz. De verdadeiros líderes. Foi Zeus quem castigou Prometeu (o tal que roubou o fogo aos deuses), não o contrário. Mas antes viu-o enlouquecer com a quantidade de fogueiras que ele próprio ateou. A derrota do orgulho desmedido pode tardar, mas é certa. Palavra de Encantadora.



domingo, 1 de novembro de 2015

Tradições importadas...e depois?

As nossas tradições são todas boas. As dos "estrangeiros" são recebidas como algo exótico ou, na pior das hipóteses, "americano". 

Para alguns de nós, europeus, o "americano" festeja tradições que nem sequer o são, pois  duas centúrias  não chegam para elevar mais alto uma única árvore genealógica. Neste e noutros aspectos,  a nossa arrogância eurocêntrica compete com a dos E.U.A, que quase ordena a Pax Americana, por meio da imposição universal da democracia.

Nós, os europeus, adoramos a deusa Europa, parideira de respeito por ter dado à luz Leonardo da Vinci e Albert Einstein, Marie Curie e José Saramago. E porque não falar de Hitler, aquele grande estadista? Para ao europeu de Direita, o americano puro tem um ligeiro atraso mental, come gelado em baldes de cinco litros e vota mal. Para a Esquerda, os americanos são capitalistas, não separam os resíduos, são belicistas desde a creche e votam mal. No geral, tanto à Direita como à Esquerda, "os americanos" são um punhado de crianças hiperactivas com défice de atenção, a que todos os assuntos interessam, dado os estudos científicos que escorrem pelas paredes das respectivas Universidades. Crianças que inventam coisas do nada (uma Nação poderosa, por exemplo) e, como no caso do Haloween, inventam reuniões de mascarados na véspera do Dia de Todos os Santos. 

No capítulo das tradições, então, tanto as formigas europeias dos carreiros à Direita, como as dos carreiros à Esquerda, clamam bem alto a sua indignação perante aquela festividade "americana" chamada Halloween, algo que terá tanto de extemporâneo como de  ignóbil, ao ganhar importância sobre a catequese ou a Festa do Avante. Eu, Encantadora, sempre embrenhada nos meus calhamaços, faço o seguinte  aviso à navegação: o cristianismo absorveu as festividades pagãs, como sucedeu com a celebração do Solistício de Inverno, "transformada" em Natal; foi a cultura judaico-cristã que, afinal, dissolveu tradições ancestralíssimas, e não o contrário. E para quem o Halloween é uma importação macabro-capitalista do "americano", cai-lhe em cima esse mesmo factor, o da ancestralidade. Antes dos "ismos", acendiam-se fogueiras de Beltane por todo o território Celta. Caras formigas: de nada nos serve acirrarmos quezílias quando se trata de validar, com o selo europeu, "o que vem de fora", usando-se a frase mais provinciana alguma vez pronunciada.

As nossas tradições, queridas formiguinhas amantes de touradas, matanças de porco em adro de igreja e assamento de gatos em postes, envolvem sangue verdadeiro. Quanto a mim, prefiro o falso que irei decalcar na minha pele para ir à festa de Halloween a que fui convidada. Uma adaptação caseira do Samahain, a Festa dos Mortos, igualmente celta. Também a seu tempo substituída pelo Dia de Todos os Santos (movido para esta data), em decreto promulgado pelo Papa Gregório III (835 d.C.).

Irei festejar também em memória dos meus antepassados, os celtas de uma europa antiga, porém bem mais tolerante e, como hoje se quer, uma europa laica.

Também podem ler: http://observador.pt/2015/10/30/a-historia-do-dia-de-todos-os-santos-que-quase-morreu-com-o-halloween/

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Tropa de Elite

À hora certa, alinham-se contra a  parede, devidamente equipadas e prontas para a acção. Antes deste grupo, um outro exercita-se até ao limite correndo e saltando com pesos agarados às pernas. O suor escorre pelos decotes, os cabelos desalinhados parecem ter ganhado o peso da chuva. Dali a pouco será a vez do carreiro seguinte, igualmente obediente à voz de comando: "Um, dois, três, salta! Um dois três, esquerda, direita!", "Vamos, vamos, vamos!". A nenhuma destas formigas ocorre desistir - alinhadas neste carreiro de "upas, upas!", enfrentam a luta contra um inimigo comum: o peso, ou melhor, o excesso dele. 


O primeiro grupo sai do estúdio, retira os pesos, o esforço formou um coro de ofegantes. É o próprio treinador que pega numa esfregona gigante para limpar o chão das águas do suadouro, preparando assim o espaço para um carreiro fresco. Entretanto, no estúdio vizinho, um punhado de formigas luta corpo a corpo com máquinas de fazer abdominais, de firmar glúteos e oblíquos, de alongar costas e levantar peitos, tudo isto ao ritmo binário de uma música de discoteca. Os exercícios têm designações como "GAP", "Body Pump", "Sh'bam", "Body vibe", sendo o denominador comum o ritmo frenético, a repetição (algo sádica) de movimentos e o suor, ah, o suor, indicador máximo que ali se gastam calorias e se abate a gordura acumulada porque (palavras da nutricionista de serviço), se vivenciaram "maus hábitos de vida".  A dar corpo à luta estão carreiros e carreiros de donas-de-casa, funcionárias públicas, gerentes, dirigentes, quadros superiores e empregadas de limpeza, todas formando uma tropa homogénea, dir-se-ia democratizada. Ali são todas iguais, desde o género ao vestuário, desde a vontade de acudir à necessidade de manter uma forma impecável, à situação de, antes de tudo, serem quase todas esposas e mães. Mais que uma tropa, uma verdadeira Tropa de Elite, não apenas devido à resposta à exigência e intensidade dos treinos, mas  pelo que também acontece depois destes. Uma vez disperso o grupo, cada qual vai buscar as criancinhas, emboscar o companheiro para que seja ele a tomar conta dos rebentos, entre uma ida rápida ao supermercado e o acender do fogão para o jantar. Em suma, com os membros ainda moídos pelo exercício e ei-las a iniciar uma nova luta, desta vez contra o tempo. 

Após o jantar e o contar da história à beira do berço, ainda se podem enviar e-mails de trabalho, combinar via chat a reunião do dia seguinte, tendo em mente que nesse mesmo dia haverá reunião com a Directora de turma, ou festa na escolinha, ou a vacina, ou então algo inesperado, como uma virose na creche. Nesse amanhã, a despeito da lista de tarefas de cada formiga, o grupo voltará a formar-se. Em carreiro, entrarão na sala de treinos com a mente focada, quais soldados a quem a noite e o dia se confundem no estrépito da música que dá o tom frenético à batalha.




segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Amor adormecido

Com o Barroco, as pinturas animaram-se  de formas em movimento e torções inovadoras, exagerando-se igualmente os contrastes entre luz e sombra.  Os corpos humanos também ganharam uma outra dimensão, bastante mais realista e terrena.


Caravaggio: Amore dormiente (71x105)
Galleria Palatina, Palácio Pitti (Florença)
Se aquelas eram as nova regras aplicadas à estética, o pintor Caravaggio (1573-1610) extravasava-as, ao pintar prostitutas, bêbados e gente comum, mesmo nas  cenas bíblicas encomendadas pelo Vaticano. Miguelangelo Mersi, di Caravaggio, era uma formiga bastante fora do carreiro de pintores que (ainda) resistiam aos tempos e idealizavam as figuras humanas nas suas criações, proporcionando-as mediante os cânones clássicos.

Em certa noite (ou dia) de vagueio pelas ruas (de Roma, presume-se), pasta de esboços na mão, Caravaggio deparou com uma criança adormecida numa viela. Visão normal - abandonavam-se crianças, eventualmente recém-nascidos, como hoje em dia se descartam animais de estimação à beira da estrada. À época, uma formiga a mais neste mundo era um incómodo para qualquer formigueiro miserável e destes havia-os aos milhares. Neste caso, tratava-se de um menino de dois, três anos de idade. Formiguinha descartada do carreiro do afecto, criança que Caravaggio captou e modelou com o seu traço, banhando-a de uma luz reveladora do rosto visivelmente plebeu, aliado à barriga dilatada pela fome. Pormenores que qualquer renascentista descartaria na sua representação. Muito menos na representação do filho de Vénus: Amor, vulgo Cupido.

Como se lembrou ele, o pintor, de transformar aquele ser enjeitado no filho deusa da Beleza da mitologia greco-romana? O certo é que o dotou de asas e dos atributos que revelam a sua missão junto dos homens e mulheres: o arco e as flechas, as quais se adivinham embebidas do soro da paixão. Podemos entrever as suas formas bem seguras na pequena mão, apesar do abandono ao sono. Como se Cupido, após horas e horas de flechadas em corações, agora devotos ao amor ilimitado, escolhesse um recanto de uma cidade italiana para se recolher e repor forças.

Existe um encantamento nisto tudo. Ao mesmo tempo que se revela a natureza cruel da humanidade, sublimam-se as consequências dessa mesma crueldade impondo à vítima a personagem do Deus do Amor. Ele próprio uma criança destinada ao abandono - Zeus, o pai de todos, sabendo de antemão os problemas que um filho de Marte e Vénus poderiam causar, não quis acolhê-lo no Olimpo. Mas a deusa cuidou do filho às escondidas e Amor conseguiu crescer e manter-se junto da família de imortais. 

Queridas formigas, o encanto desta pintura reside, para mim, na união perfeita do mitológico Cupido com a realidade do menino abandonado. Amor adormecido e sozinho, por lhe ser negado deixar-se amar pelas leis sagradas do Olimpo; também a criança abandonada na noite romana porque as leis terrenas assim o permitiam. Contemplamo-a através dos olhos de Carvaggio durante os minutos que durou a realização do esboço. Vemos o quadro e quase desejamos retirá-la da moldura, permitindo-lhe uma vida plena de afecto, de carícias e risos. Mas é tarde de mais. Caravaggio, esse, fez o que podia. Pintou aquele puttus para a posteridade e, não contente com isso, ofertou-lhe um lugar perene no mundo dos deuses, num Olimpo com torrentes de ambrósia capaz de alimentar qualquer mortal pela eternidade.

Sobre Carvaggio: